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    Nome: Arthurius Maximus
    Local: Rio de Janeiro, RJ, Brazil
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    O ESPÍRITO DO FOGO.

    A SENTINELA – O TEMPLO DE MYRHO.

    ESTRANHA PESCARIA.

    NO DESERTO.

    LEMBRANÇAS.

    O CAMINHONEIRO.

    O NOVATO.

    DESASTRE.

    APRISIONADO.

    O PASSAGEIRO.





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  • Quarta-feira, 7 de Maio de 2008

    O ESPÍRITO DO FOGO.


    A noite estava linda. O céu limpo e iluminado por uma lua cheia e imensa. Que parecia presa ao firmamento apenas pelos desejos e juras de amor de milhões de amantes que a admiravam.

    Planejaram aquela viagem há muito tempo. Era a oportunidade perfeita que aguardavam. Ficariam, uma semana, longe de tudo e de todas as perturbações da cidade grande. Ali, em contato com a natureza e a beira daquele riacho límpido e cristalino, podiam amar-se e nadar livremente e com privacidade. Ambos adoravam a vida ao ar livre. E aquela noite maravilhosa coroava de êxito toda aquela experiência aventureira.

    Já tinham se acostumado com os ruídos da mata e o burburinho que vinha do riacho. Mas, naquela noite, estranhamente não ouviam qualquer ruído de animais. Até mesmo o vento parecia estar ausente. Conforme a noite avançava, começaram a ouvir um cântico ritmado e acompanhado por várias vozes em coro. Curiosos, subiram ao cume de uma pequena colina que ficava do outro lado da margem do riacho. Lá, podiam observar um vale quase plano e não muito profundo que havia do outro lado. Bem no centro do vale, viam várias fogueiras e homens e mulheres nus que dançavam ao redor delas.

    O cântico atingia um clímax e o ritmo se acelerava. Nesses momentos, as mulheres que dançavam trocavam de lugar, alternando entre as fogueiras e deitavam-se no chão. Então, eram imediatamente possuídas por homens que pareciam e transe.

    A visão daquele louco ritual excitou a ambos. Rindo e ansiosos por uma experiência diferente e apimentada, desceram a colina correndo e, conforme avançavam para o fundo do vale, livravam-se de suas roupas. Completamente nus, correram como crianças e juntaram-se ao primeiro grupo que ainda dançava ao redor de uma das fogueiras.

    A reação do grupo foi imediata e surpreendente. Todos pararam de dançar e cantar. Os que tocavam pequenos tambores cessaram suas batidas rítmicas e hipnóticas e a sensação era de que todo o universo parara e os observava. Constrangidos, o jovem casal tentou se apresentar e balbuciar algo. Mas não houve tempo. Dois homens fortes agarraram o rapaz e sem dizer uma única palavra, o fizeram ajoelhar-se. Seu rosto foi colado ao chão e foi mantido nessa posição dolorosa e desconfortável. A mulher gritava e tentava desvencilhar-se das outras que a dominavam e estendiam se corpo sobre as brasas da fogueira que foram espalhadas pelo chão. O cheiro de carne queimada tomou conta do ar e os gritos lancinantes de dor cortavam o ar.

    O líder do grupo; e o uni que vestia uma pesada fantasia que lhe cobria todo o corpo da cabeça aos pés; aproximou-se da mulher queimada e começou a tirar suas próprias roupas. Nesse momento, o rapaz foi erguido do chão e pode observar horrorizado o que acontecia. Ao retirar sua fantasia, o estranho personagem, revelava uma coisa que era impossível e inacreditável. Seu corpo estava completamente envolvido por chamas. Estranhamente, ele não aparentava sentir qualquer dor. Completamente nu, era possível ver claramente as chamas contornando e abraçando cada parte de seu corpo. Como se fossem feitas de fogo líquido. A pele queimada e enegrecida pingava gotas incandescentes de gordura derretida.

    O jovem imobilizado, tentava gritar e virar o rosto. Mas era impedido pelas mãos fortes de seus captores. Ele pôde ver quando o homem em chamas deitou-se sobre o corpo de sua esposa e ambos foram envolvidos e devorados pelas chamas. A mulher gritou em desespero por alguns instantes; mas logo silenciou completamente.

    Os homens que o seguravam, soltaram seus braços e juntamente com os demais participantes daquele ritual macabro foram embora; desaparecendo na escuridão da noite. O jovem ergueu a cabeça e olhou os dois corpos carbonizados que pertenciam aquele estranho homem e a sua mulher. Ambos haviam sido reduzidos praticamente montes de cinzas calcinadas.

    Chorando, num misto de desespero e impotência, apenas deitou-se na relva úmida enquanto o sol começava a nascer no horizonte.

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  • Domingo, 20 de Abril de 2008

    A SENTINELA – O TEMPLO DE MYRHO.


    Eles chegaram ainda à noite. A pequena e pacata cidade foi cercada com barricadas, arame farpado e posto de observação foram montados. Atiradores postados no alto das torres Sondavam todo o terreno à frente das barreiras e tinham ordens de eliminar, sem hesitar, toda e qualquer forma de vida que se aproximasse das zonas delimitadas pelas barreiras.

    Soldados em roupas especiais espalhavam uma grande quantidade de minas terrestres e de armadilhas ao longo de toda a cerca de arame farpado Era simplesmente a maior operação militar já realizada naquele pequeno país. As cercas estendiam-se por milhares de quilômetros e circundavam toda a área em torno da cidadezinha. Eram compostas de três estágios de alturas diferentes e, entre cada um deles, minas e dispositivos automáticos de disparo destruíam qualquer coisa que ousasse romper o perímetro. Além disso, cada cerca era eletrificada com milhares de volts.

    Ninguém sabia muito ao certo o que acontecera. As duas missões médicas enviadas a cidade jamais voltaram. A unidade tática, altamente treinada, enviou apenas uma mensagem solicitando resgate imediato. Quando os helicópteros chegaram, encontraram apenas os veículos abandonados.

    A população local nada sabia, ou dizia nada saber, dos médicos e dos militares. Eram solícitos e normais. Como todos os habitantes do interior. Mas algo estava muito errado. Quando os helicópteros voltaram, as tripulações foram acometidas de estranha loucura. Mataram vários colegas até serem mortas num tiroteio sangrento. As autópsias nada revelaram de anormal. Todos pareciam estar em perfeita saúde.

    A quarentena, então, foi decretado pelo governo central e a cidade isolada. Sem recursos, o governo pedira ajuda as Nações Unidas que enviaram tropas e especialistas médicos. Eles nada encontraram. No entanto, as mortes violentas continuavam a acontecer. Canibalismo e atos grotescos eram comuns. Cogitava-se, até mesmo, o extermínio completo da pacata cidadezinha.

    Dois meses se passaram, sem que qualquer progresso fosse conseguido. Ocorrências com as guarnições militares começaram a acontecer e, em alguns pontos das cercas, verdadeiras carnificinas aconteciam. Os soldados pareciam ter enlouquecido de uma hora para outra sem motivo aparente. E nenhum agente infeccioso ou substâncias nocivas foram detectados nos corpos.

    O velho veterano atirador, com mais de vinte anos de vida militar e algumas guerras e muitas mortes na consciência; viu ao longe vindo a pé pela estrada que vigiava um homem. Era jovem e alto. Vestia-se de preto e portava apenas uma bolsa surrada, um pequeno livro e uma arma estranha que ele não via fazia décadas.

    Ele enquadrou o caminhante na mira e estudou cuidadosamente a direção e a força do vento. O caminhante vinha de fora da área de quarentena, mas se tentasse atravessar as cercas, deveria ser detido a todo o custo. Eram as suas ordens. Ele estava a mais de um quilômetro. Mas sua figura contrastava muito com o ambiente e seria fácil atingi-lo. Ajustou um pouco a arma e fixou seu alvo pousando suavemente seu dedo no gatilho.

    O ruído abafado pelo silenciador e o pequeno recuo do potente fuzil fizeram seu corpo mexer-se um pouco no abrigo camuflado. Pela mira telescópica, esperava ver a típica explosão de sangue e fumaça que as balas faziam ao atingirem seus alvos. Controlava a respiração e já tinha a arma preparada para um segundo disparo. Isso nunca fora necessário, sempre alcançara “um tiro, uma morte”; o lema dos atiradores. E essa, era a meta de qualquer atirador. Mas, absolutamente nada, o preparara para o que via pelas lentes da mira. Onde deveria haver sangue e uma pequena explosão de fumaça, quando a bala atingisse seu alvo; ele vislumbrou apenas um pequeno brilho.

    Refeito do susto, pressionou o gatilho mais uma vez e recarregou a arma de imediato. A mesma coisa acontecera. Três outros disparos atingiram o alvo com extrema precisão e em várias partes do corpo. Tudo o que vira fora um leve brilho dourado e nada. O estranho continuava avançando como se nada tivesse acontecido. Quando ele disparou o último tiro, o homem parou e olhou diretamente em seus olhos. Mesmo naquela distância, ele percebia que aquela estranha figura sabia exatamente onde ele estava. Num gesto inesperado, o homem que continuava a avançar e a olhar fixamente em sus direção; sorriu.

    Em seu ninho de atirador camuflado, o veterano de muitas batalhas e com muitas mortes na consciência, não entendia o que acontecera. Contrariando todo o seu treinamento e seus anos de experiência em combate, ele apanhou seu fuzil e algumas granadas e deixou seu abrigo camuflado. Descendo a pequena colina, postou-se na estrada diretamente à frente do estranho que continuava em sua caminhada lenta e inexorável.

    Quando apenas uma dezena de metros os separava; ele pode perceber que aquele estranho homem de preto era um padre. Ou, pelo menos era o que parecia. Ao se aproximar o suficiente para ser tocada, a estranha figura sorriu novamente e tocou a face do veterano com suas mãos quentes e acolhedoras.

    Aquele toque incomum; era dotado de uma força e de algo que o velho soldado não conseguiu entender. Tudo o que sentira, ao ser tocado por aquela figura, fora uma extrema paz. Sentiu que sua alma era banhada por uma estranha sensação de que todas as mortes, todo o horror e toda a carnificina que presenciara e pelas quais fora responsável, eram simplesmente apagadas de seu espírito. Sentindo-se leve e emocionado a ponto de perder as forças, deixou-se cair sobre o pó da estrada em lágrimas.

    Eles não haviam trocado uma única palavra. Apenas um toque e um sorriso. Mas ele pode perceber que, aquele estranho padre, não era deste mundo. Naquele dia, naquele lugar de morte, dor e destruição; ele havia visto um santo.

    Poucos dias depois, a cidade foi declarada segura. Quando as forças militares invadiram o lugar, encontraram moradores saudáveis e uma cidade sem qualquer sombra de problemas. A fantástica história contada por todos eles, mesmo quando interrogados separadamente, dizia que um estranho chegara à cidade, numa tarde, e encontrara um templo subterrâneo dedicado a Myrho - o demônio da ilusão e da fome – e que este havia dominado a região e pretendia construir um portal para as legiões de Lúcifer. (Isso foi o que ele contara)

    Diziam que a figura franzina e vestida como um jovem padre destruíra o templo e duelara em plena rua com o próprio demônio. Destruindo-o com uma pequena espada e entoando cânticos numa língua nunca ouvida antes por eles. O demônio urrara e vomitara imprecações amaldiçoando Deus. Ondas de criaturas infernais brotavam do interior do templo e apossavam-se das pessoas, atacando o jovem. Ele combatia com uma maestria e uma destreza sem igual. Como se fosse saído de um desses filmes de luta. E, um a um, a estranha figura derrotou todos os emissários satânicos. Por fim. O demônio gritou uma imprecação e chamou o homem que o enfrentara de “sentinela”; retornando as profundezas.

    A notícia percorreu as tropas como um rastilho de pólvora. A incredulidade e a confusão se espalhavam. As conversas iam do sobrenatural a hipnose coletiva. Quem seria o tal “guerreiro místico” que ninguém vira. Os ruídos da “luta” foram ouvidos pelas tropas, mas nunca imaginaram o que se passara ali. O debate era tão acirrado, que os oficiais tiveram de apelar para métodos disciplinadores. O único que parecia saber o que realmente acontecera e que permanecera em silencio durante todo o tumulto que se seguiu, fora um velho e veterano atirador de tocaia. Mas, ninguém prestou muita atenção nele. Afinal, diziam que eles eram todos loucos e perversos mesmo...



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  • Segunda-feira, 24 de Março de 2008

    ESTRANHA PESCARIA.


    Era uma noite clara. A lua iluminava as águas calmas do rio com um brilho forte e prateado; quase hipnótico. Eles aguardavam desde o início do ano por aquela oportunidade toda especial. Todos conseguiram tirar férias juntos e após muita economia e sacrifícios, juntaram o valor correspondente às despesas com a viagem e a permanência naquela cidadezinha bucólica.

    Todos diziam que a pesca por ali era maravilhosa. Peixes enormes e de fácil captura, além de brigadores, eram de se encontrar facilmente por aquelas bandas do rio. Diziam que vinha gente do mundo todo só para pescar ali. E, de fato, até aquele momento tinha sido maravilhoso.

    Embarcaram mais uma vez e começaram a remar a canoa para o pesqueiro indicado pelo guia. A luz da lua parecia traçar o caminho através das águas calmas e quase transparentes. Era possível até se ver alguns peixes que se aproximavam da iluminação pendente na lateral da canoa. Chegando ao local determinado, atiraram suas iscas e ficaram aguardando os peixes “morderem”.

    Após horas sem que nada acontecesse e de muito bate-papo e alguns goles da excelente cachaça local, ânimo dos amigos diminuiu um pouco. O álcool e a fome começavam a cobrar os seus tributos e todos já pensavam em ir embora. Discutiam sobre qual decisão tomar, quando um barulhão vindo do rio chamou a atenção de todos.

    Na escuridão rasgada pela luz da lua, puderam divisar claramente um enorme vulto negro na água. O enorme peixe passou sob a canoa e, resvalando o casco, a fez balançar. Imediatamente, a conversa acabou e toda a atenção foi depositada nas águas agitadas. O enorme animal parecia brincar com eles. À distância e longe da iluminação do barco, ouviam o barulho de seus saltos e de suas estripulias aquáticas. Parecia observar e chamar os pescadores.

    E foi o que fizeram, deixando as varinhas de lado um pouco, começaram a remar e a perscrutar a escuridão tentando localizar o destino do peixe. Nada. Mas logo ouviram um barulho alto, como se algo muito pesado caísse na água. Seguiram na direção do som e deram com um desvio no rio. Um igarapé se abria à frente deles e o som do peixe mergulhava mais fundo por aqueles lados.

    Continuaram remando e deixaram o braço principal do rio. Penetrando no igarapé, a claridade da lua foi logo sendo engolida pela vegetação alta das margens que caía sobre o curso d’água formando uma cobertura natural.

    Certos de que haviam perdido a caça, resolveram que voltariam e iriam para casa. Bastava de cansaço e de perda de tempo por aquela noite. Surpreendentemente, a corrente no igarapé era mais forte que no rio por onde vieram. Mal conseguiam ver poucos metros à frente e o medo já começava a plantar suas raízes nos corações dos pescadores. Remavam cada vez mais rápido e em silêncio total. Que era quebrado apenas pelo barulho da mata ao redor deles e pelo ritmo do bater dos remos na água.

    Estranhamente, a correnteza parecia puxá-los cada vez mais para o interior do igarapé. Aquilo era impossível. Mas tinham a nítida impressão de que já haviam remado mais do que o necessário para transpor a distância que penetraram por aquele curso d’água.

    Um solavanco forte e rápido jogou a canoa para o alto e fez com que soltassem os remos e boa parte do material de pesca e a iluminação caísse no rio. Tentaram ver em que teriam batido. Mas não havia pedras e nem troncos aflorando das águas. Examinaram o casco da canoa e perceberam uma enorme rachadura bem no meio dela. A água começava a inundar o barco e a única chance era tentar chegar à margem. Mas aquela estranha corrente os impedia. Quanto mais tentavam, usando tudo o que tinham em mãos como remos, menos avançavam em qualquer direção.

    A água em volta da canoa começou a agitar-se e a borbulhar. Como se um enorme bolsão de gás houvesse se rompido logo abaixo de onde estavam. Desesperados, abraçaram-se forçados pelo medo e foi com os olhos esbugalhados pelo terror que viram a canoa partir-se e afundar nas águas geladas. Nadavam movidos pelo desespero e pela adrenalina quando um deles, soltando um grito lancinante, foi tragado pelas profundezas do rio e desapareceu. Os outros começaram a nadar com todas as forças, rumo a margem. Mas avançavam lentamente. A água fria e a correnteza anulavam seus esforços quase totalmente. Gritavam por ajuda, na vã esperança de que alguém os socorresse.

    Mas, por sobre o ruído ensurdecedor da correnteza, só outro grito desesperado cortou a noite. Ele agora estava sozinho. Não vira o que acontecera, mas instintivamente, sabia que aquele grito horrível só podia ter sido dado por seu amigo. Nadava mais rápido e começava a sentir os primeiros sinais de câimbras. Sabia que era o fim. Estava exausto, sentia que seu corpo estava prestes a se entregar. Morreria e ninguém jamais saberia o que acontecera com ele e seus amigos.

    Seus pensamentos vagavam e preparavam-se para o torpor que tomaria conta dele em breve. Foi quando. Subitamente, sua mão bateu em algo sólido. A dor foi tão grande que despertou todo o seu corpo do abraço mortal que começava a se apossar dele: Chegara à margem.

    Com o resto de suas forças, conseguiu subir pela beira do rio e rolar para o mato, afastando-se o mais que pode das águas mortais. Ergueu-se e olhou para o rio que agora estava calmo e silencioso como antes. Não entendia o que acontecera. Onde estavam seus amigos?

    Tentava achar algum vestígio deles e do barco quando, bem próximo à margem onde estava, viu novamente a enorme silhueta negra do peixe que os arrastou até aquela armadilha mortal. Sem pensar, apanhou uma pedra e atirou na estranha sombra. O que viu depois, o marcaria para sempre: Do fundo do rio, ele percebeu que dois enormes olhos vermelhos e incandescentes o observavam.









    Nota do Autor: Conto baseado na lenda do “nego-d’água”.

    Diz a lenda que o Negro D'água ou Nego D'água habita diversos rios tais como o rio Tocantins e o rio São Francisco onde possui um monumento em sua homenagem na cidade de Juazeiro (Bahia).

    Manifestando-se com suas gargalhadas, preto, tem a cabeça pelada e mãos e pés de pato, o Negro D'água derruba a canoa dos pescadores, se eles se lhe recusarem dar um peixe.

    Em alguns locais do Brasil, ainda existem pescadores que, ao sair para pescar, levam uma garrafa de cachaça e a atiram para dentro do rio, para que não tenham sua embarcação virada.

    Esta é a História bastante comum entre pessoas ribeirinhas, principalmente na Região Centro-Oeste do Brasil, muito difundida entre os pescadores, dos quais muitos dizem já ter o visto. Segundo a Lenda do Negro D'Água, ele costuma aparecer para pescadores e outras pessoas que estão em algum rio. Não se há evidências de como surgiu esta Lenda, o que se sabe é que o Negro D'Água só habita os rios e raramente sai dele, sua função seria como amedrontar as pessoas que por ali passam, como partindo anzóis de pesca, furando redes dando sustos em pessoas a barco,etc.

    Suas características são muito peculiares, ele seria a fusão de homem negro alto e forte, com um anfíbio. Apresenta nadadeiras como de um anfíbio, corpo coberto de escamas mistas com pele. (Fonte Wikipédia)

    Sexta-feira, 14 de Março de 2008

    NO DESERTO.


    Estava cansado e com fome. Caminhara a noite toda por aquela estrada deserta e não vira um único carro ou uma única alma viva em mais de cinco horas de caminhada. Logo ia amanhecer e sabia que o sol, naquele deserto, ia torrar seu pobre corpo lentamente até que sedento e enfraquecido; morreria. Era necessário buscar um abrigo o mais rápido possível.

    Na escuridão, não conseguia vislumbrar nada que não estivesse muito perto. A sua frente, apenas o asfalto que logo estaria em brasa. À direita, apenas uma vasta planície árida e repleta de rochas cortantes e a minha esquerda, um emaranhado de rochas enormes e pedras soltas que se elevava vários metros acima do solo.

    O sol já se insinuava no horizonte e a brisa fresca de agora, daria lugar ao calor extremo e ao vento escaldante muito em breve. Com os tênues rasgos de claridade, conseguia divisar a paisagem mais claramente. Ao longe, pode ver o que parecia uma pequena abertura num monte pedregoso; o que podia indicar uma caverna. Era a única opção para escapar do sol abrasador e de seu abraço mortal.

    Lentamente rastejou pela pequena abertura e conseguiu, após alguns minutos, enxergar no interior escuro da pequena caverna. O espaço interno era maior do que pensara. Apesar da entrada apertada, era possível ficar de pé e bem no fundo, via-se uma abertura que mergulhava profundamente na terra. Pelo menos do sol, estaria seguro agora.

    Exausto, faminto e com uma sede infernal; deixou-se cair sobre o chão arenoso e mergulhou num sono sem sonhos. Deve ter dormido muito pouco. Sentia-se ainda exaurido quando, finalmente, abriu os olhos. Podia perceber que lá fora, o calor era terrível. Ao aproximar-se da pequena entrada, uma emanação tórrida atingia sua pele e o fazia recuar. Calculou que devia estar perto dos cinqüenta graus lá fora.

    Sua língua inchada parecia grande e dolorida demais, causando um desconforto terrível. A garganta, ressequida e inflamada, tornava cada respiração um tormento torturante. Era como se lâminas afiadas rasgassem suas vias aéreas a cada respiração. Tentou cantar para espantar o terror que sentia, mas era impossível. Se não bebesse algo bem rápido; morreria.

    Começou a explorar a caverna e não encontrou nada que pudesse ser comido e nem que contivesse algum líquido. Aquele buraco era tão morto e seco; como ele logo seria. Sua única opção era deixar-se escorregar por aquela abertura no fundo da caverna. Sabia muito bem que esses buracos podiam ser habitados por criaturas do deserto perigosíssimas. Mas não havia outra opção. Sabia que não duraria nem mais um dia naquele buraco e; muito menos, lá fora.

    No interior da fenda, a temperatura era incrivelmente menor do que na caverna. Achou que estaria a uns vinte e dois ou vinte e quatro graus ali. O que era muito estranho. Pois, essa diferença, deveria ser de apenas uns poucos graus somente. E o mais impressionante de tudo: A pequena fenda; dava para uma abertura gigantesca. Quase uma catedral subterrânea. O pequeno caminho por onde entrara, alargava-se até atingir quase dois metros de largura no meio da descida.

    À medida que caminhava para baixo, o teto da nova caverna ia sumindo da vista; até tornar-se completamente indistinto. Era simplesmente impossível calcular a altura daquela magnífica construção natural. Sentiu um cheiro familiar e escutou um barulho, pelo qual, ansiava há muito tempo. Começou a correr, tomado pelo desespero, e mesmo quase sem enxergar; arriscou-se a cair numa fenda ou a tropeçar sobre uma roça pontiaguda. Mas, aquele barulho... era água.

    Chegou à base do caminho e nem se deu conta de que levara quase cinco minutos correndo, para atingir a base da caverna. A distância era enorme, mas isso não importava mais. Apenas o maravilhoso lago límpido e profundamente azul que se descortinava a sua frente. Não havia qualquer fenda no teto da caverna, mas a água irradiava um brilho azulado forte, que se espalhava pelas paredes rochosas e perdia-se na escuridão reinante.

    Sem sequer hesitar, mergulhou imediatamente naquele paraíso líquido. Quando tocou a água, deixou-se invadir pela maravilhosa sensação gelada e confortante; que afastou completamente seu desespero e seu cansaço extremo. Ali, rindo e feliz como uma criança, erguia as mãos para o alto e despejava a água gelada sobre sua cabeça, sorvendo avidamente, goladas e mais goladas daquele precioso maná.

    Esquecera-se completamente de onde estava e de suas preocupações. Naquele exato momento, só havia ele e a água. Foi quando uma voz delicada e feminina chamou sua atenção.

    Olhando ao seu redor, nada viu. Mas aquela voz... era encantadora e estava tão próxima. Logo depois, seguiram-se risinhos de contentamento. Já refeito do susto e com o corpo revigorado pelo banho e pela água ingerida, deixou o lago e aventurou-se ainda mais profundamente na caverna; atrás daquela voz maravilhosa.

    Contornando uma rocha enorme, vislumbrou uma luz forte e radiante. Ela banhava aquela parte da caverna com uma claridade tão forte que mal podia manter os olhos abertos. Olhou para trás e percebeu que a estranha luz dissipava-se completamente e de maneira abrupta logo atrás de si. Aquilo era intrigante e desafiava as leis da física. Era como se um manto gigantesco cobrisse a entrada de onde a luz jorrava; isolando-a completamente e impedindo que fosse vista do outro lado da caverna.

    Quando seus olhos acostumaram-se a claridade, um mundo estranho e totalmente inusitado abriu-se a sua frente. Planícies verdejantes, lagos, árvores, animais nunca vistos, e... pessoas. Via crianças, mulheres belíssimas e homens fortes trabalhando ou simplesmente passeando pelos campos vastos. Tentou vislumbrar o horizonte, mas não percebia o fim daquela paisagem, por mais ao longe que esticasse o olhar.

    Gritos de medo e espanto chamaram sua atenção e percebeu que todos corriam em disparada; mergulhando na floresta de enormes árvores roxas que se erguiam algumas centenas de metros mais à frente.

    Apenas uma delicada figura esguia e morena permaneceu de pé, encarando-o curiosamente. Olhos amendoados e inquisitores, emoldurados por um cabelo longo e liso; o que dava uma beleza estranha e harmoniosa aquele rosto sereno. Esticando os braços, a beldade sorriu amigavelmente e disse, sem mover os lábios, que ele se aproximasse. Era isso mesmo, ele ouvia a bela voz em sua mente. Mas a exótica mulher não fazia qualquer movimento labial.

    Curioso e maravilhado; estendeu sua mão para ela tocando-lhe levemente a pele macia e quente. Segurou-lhe a mão e caminhou ao longo de um calçamento de pedras até uma pequena construção que pareci ser feita de palha.

    Deitou-se numa cama macia e perfumada e percebeu que uma luz dourada banhava levemente seu corpo e retirava toda a dor e a fadiga que sentia. A mulher, ainda sorrindo e sempre olhando com curiosidade quase infantil; despiu-lhe a roupa esfarrapada e estendeu-lhe uma túnica tecida em algo que parecia ser seda. Mas, era muito mais delicado.

    Aproximando-se cautelosamente, ela beijou-lhe os lábios com suavidade e ele pode sentir seu gosto e seu perfume inebriante. Num gesto rápido, ela aproximou uma cesta com vários tipos de alimentos estranhos e, mais uma vez em sua mente, ouviu-a dizer que comece.

    Após algum tempo se fartando daquelas frutas estranhas, porém deliciosas, olhou na direção da curiosa beldade que o encarava outro lado da pequena sala. Delicadamente, ela pegou-o pelo braço e fez com que saísse da cabana. Lá fora, uma multidão enfeitada e alegre acotovelava-se ao redor da entrada, vestida para uma ocasião festiva. Pareciam sorrir e irradiavam uma enorme felicidade ingênua.

    Ele sorriu de volta e ergueu sua mão num cumprimento amigável. Foi quando um silvo alto e breve, bem do seu lado esquerdo o fez virar-se. Ainda pode ver a pesada lâmina que o acertara bem no alto do ombro, praticamente, partindo todo seu tronco. Enquanto a dor o engolfava numa escuridão espessa; pode ouvir, mais uma vez, a doce voz feminina reverberar em sua cabeça: “Vocês da superfície são sempre um ótimo sacrifício aos nossos Deuses!”


    Sexta-feira, 7 de Março de 2008

    LEMBRANÇAS.


    Mesmo agora, passado tanto tempo, ele sentia o cheiro acre e nauseante da carne queimada. Podia ver claramente os vapores espalhando-se pelo ar a sua volta, envolvendo a sala com seus gases pútridos. Era uma sensação tão poderosa, que chegava a sentir o seu gosto. O sabor metálico e azedo que consumia sua língua e queimava-lhe a garganta; sufocando-o. Nessas ocasiões, recostava-se nas paredes e apoiava-se no que estivesse a mão. Afinal, sentia o mundo girar em torno de si e tinha certeza de que, se não se segurasse, cairia.

    Lembrava-se claramente do rosto angelical e dos olhos límpidos e cheios de vida, consumidos lentamente pelo fogo. Dos gritos da mulher, tão jovem e bela, que ainda faziam arrepios gelados percorrerem seu corpo, numa louca dança. A boca seca e as mãos trêmulas fora tudo que restou daquelas horas de incrível agonia, antes e depois de terem atirado na mulher.

    Não compreendia como uma simples brincadeira podia ter chegado a um final tão horrivelmente marcante; que o perseguia até aqueles dias. Tragou profundamente seu cigarro e, na escuridão do quarto, podia ver os contornos da bagunça em volta, que nada mais eram que um reflexo de sua vida depois aquele dia.

    Atirou-se na cama e ficou parado, talvez por horas. Cigarro após cigarro; observando a brasa rubra e a fumaça que rodopiava marcando o ar com seus contornos transparentes. Imediatamente, lembrava-se da fumaça viscosa e escura que se desprendeu do corpo da mulher e da tonalidade negra-avermelhada própria das queimaduras. Lembrava-se hoje, como se tudo tivesse acontecido há pouco instantes; e isso o atormentava mais do que qualquer outra coisa que fizera.

    Lembrava-se de, ao ser atingido por aquele odor terrível, ter se virado e vomitado ao lado da jovem que ardia em chamas. Incrivelmente, seus amigos riam e gargalhavam ante a visão do sofrimento terrível que causaram. Mas não ele. Ele apenas observara tudo e nada fizera. Sequer abrira a boca para protestar. Mesmo quando ela implorou desesperadamente que a deixassem ir; simplesmente limitou-se a não olhar.

    Depois daquela noite, sua vida mudara completamente. Abandonou tudo e todos. Vivia recluso com seus fantasmas naquele quarto imundo. Ou melhor, vivia com seu único fantasma: Aquela jovem mulher. Às vezes, em seus sonhos, ela aparecia vestida lindamente e com seu sorriso encantador; era sempre muito gentil com ele. Mas o sonho terminava sempre da mesma forma: Ela o beijava e abraçava pressionando-o com força contra seus seios fartos e quentes. Quando dava por si, ela se incendiava e mantinha-o contra si num abraço tenaz. Enquanto rodopiava pelo salão de festas, rindo as gargalhadas, as chamas cresciam e os envolviam. Ele podia sentir todo o seu calor. Porém, não havia dor alguma.

    Mesmo depois de tanto tempo, as lembranças daquele momento se faziam fortes e sempre presentes. O cheiro; a visão do fogo consumindo o corpo perfeito e os cabelos louros; os olhos com aquela expressão de pânico e desespero insondáveis e patéticos, tentando descobrir o motivo daquilo tudo; e as gargalhadas histéricas dos outros...

    A verdade é que já não agüentava mais. Desejava a paz de forma definitiva e desesperada. Mesmo sabendo que isso seria impossível. Só queria que aquilo parasse. E pensando nisso, apertou o gatilho da 9 mm que mantinha sempre com ele.





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  • Sábado, 1 de Março de 2008

    O CAMINHONEIRO.


    Acordou enjoado. Aquela sensação o acompanhava desde o início da manhã anterior. Era algo forte que parecia apertar seu peito e estômago como seu fosse um enorme peso depositado ali.

    Mas tinha que trabalhar. Caminhoneiro experiente e acostumado ao transporte de cargas perigosas. Era sempre requisitado para o fretamento das cargas mais valiosas, e de maior periculosidade. Seus mais de vinte anos ao volante tornaram-no um cínico. Não acreditava em nada dessas baboseiras religiosas e abominava esse negócio de “ajudar ao próximo”. Toda vez que tentara ajudar alguém, sofrera algum prejuízo ou fora atacado por assaltantes.

    Mas não se sentia muito bem. Pensou que talvez fosse melhor ter alguém com ele na boléia do caminhão naquela viagem. Entrou na cabine e ligou o motor que estremeceu e vomitou fumaça no ar limpo da manhã que se anunciava. Ainda com a sensação estranha martelando seu peito, vislumbrou o céu que clareava no horizonte e acelerou a poderosa máquina.

    Levou pouco mais de meia hora para chegar até o pátio da transportadora. “Quisera Deus que o trânsito fosse sempre assim” – Pensou. Mas, ao procurar pela carga que deveria transportar, o encarregado disse apenas que ele deveria apanhá-la em outro endereço. Deu-lhe os documentos e as orientações necessárias e o fez rodar.

    Uma hora mais tarde, chegava a um enorme armazém junto ao cais do porto. Logo na entrada, um homem de aparência zangada e impaciente o esperava e indicou o local onde poderia apanhar a carga. Ele manobrou o caminhão e uniu o “cavalo” ao engate com a carreta. Consultou a documentação; tudo estava em ordem. O manifesto de carga dizia apenas: “Resíduos Biológicos”.

    A viagem até o ponto de destino seria demorada. Cerca de vinte horas de viagem e, o cara estranho da entrada, lhe dissera que na cidade vizinha haveria uma escolta para seguí-lo até o destino final. "Pois a carga atravessaria o meio urbano" - Dissera.

    Os primeiros quilômetros foram calmos. Mas, conforme o dia ia dando lugar à noite, a sensação de mal estar e de peso no estômago aumentavam. Aquilo o estava incomodando tanto que pensou em parar na estrada e chamar o socorro médico da companhia. Enquanto pensava nessa decisão, viu ao longe, que uma mulher na estrada fazia sinais desesperados tentando fazer com que os veículos parassem. Conforme se aproximava, via que ela segurava um embrulho nos braços e seu rosto estava transfigurado pela ansiedade e pelo desespero.

    Parou o caminhão no acostamento e notou que o embrulho era, na verdade, um pequeno bebê. Muito miudinho para ser um recém-nascido saudável. A mulher, em pratos, pedia ajuda para chegar à cidade mais próxima, onde haveria um hospital equipado para salvar seu filho que ardia em febre.

    Mesmo sabendo que era uma atitude irregular, o caminhoneiro ajudou a mulher a subir na boléia do caminhão e pôs-se novamente a caminho. A criança chorava muito, acompanhada por sua mãe que soluçava e rezava baixinho. O velho caminhoneiro preocupava-se em não conseguir chegar a tempo. Mas fazia o que podia e se aumentasse muito a velocidade, corria o risco de provocar um acidente.

    A noite já cobria tudo e a estrada mergulhou na escuridão que a torna tão perigosa. A atenção do velho caminhoneiro estava totalmente concentrada no asfalto que se desenrolava a sua frente; quando, após uma curva, um acidente horrível entre vários carros e um ônibus obstruíra a passagem do caminhão. Seria necessário circular pela pista de mão oposta para continuar a viagem. Estranhamente, não se formara ainda o engarrafamento de praxe na estrada. Ele estranhou, mas resolveu cuidadosamente desviar e avançar sobre a pista contrária.

    Contornando o desastre, retomou a mão de direção correta e poucos quilômetros à frente, uma vendinha de beira de estrada estava em chamas. Enquanto o caminhão se arrastava pelo aclive, gemendo com o peso de sua carga, o velho caminhoneiro pôde ver claramente os corpos despedaçados e queimados ainda fumegantes; espalhados ao redor da estrutura em chamas. Uma visão estarrecedora que fez seu sangue gelar.

    Aquela, sem dúvida alguma, estava se tornando uma viagem de mau agouro. Nunca, em todo seu tempo de estrada, vira algo como aquilo. Tamanha reunião de desgraças simultâneas era algo tão incomum que ele acabou achando que o peso que sentia o peito e no estômago eram, na verdade, uma premonição do que aconteceria mais tarde.

    Ainda estava imerso naqueles pensamentos quando escutou uma enorme explosão bem à frente de uma curva fechada. Um clarão enorme iluminou a noite e os gritos que se seguiram podiam ser ouvidos, com uma nitidez incrível, dentro do caminhão. A criança e a mulher olharam espantadas e começaram a chorar, soluçar e gritar ainda mais alto. Quando ele terminou de fazer a curva... não havia nada. A estrada estava completamente calma e deserta. Só ao longe, ele podia divisar os carros da escolta que o aguardavam no fim da reta: Era a divisa da cidade.

    O velho caminhoneiro, calejado e endurecido pelos anos de estrada, sentia-se tão transtornado por tudo que vivenciara naquela noite estranha que se rendeu e começou a rezar baixinho. Pedia que Deus olhasse por todos aqueles que se vitimaram naqueles acidentes ao longo do caminho e, que o bebê ao seu lado que chorava cada vez mais alto, conseguisse chegar a tempo no hospital. Decidiu que ao chegar à escolta, pediria que enviassem um helicóptero para agilizar o resgate.

    Foi quando sentiu um toque gentil em seu braço. Era a jovem mãe. Com os olhos marejados e com uma expressão de ternura imensa. A mulher lhe disse apenas: “Obrigado por ajudar moço!” – E desapareceu da cabine.

    Assustado, o velho pisou no freio com toda força que seu corpo possuía e, assim que o veículo parou, jogou-se para fora da boléia. A equipe de escolta, temendo pelo pior, chegou ao local em menos de um minuto e cercou o caminhão; sinalizando a estrada. Perguntaram ao velho o que tinha acontecido: Pane? Estava passando mal? Sono?

    O velho nada disse. E, diante da insistência do pessoal, acabou erguendo-se e retornou ao caminhão sem dizer uma única palavra; prosseguindo a viagem. Daquele ponto até o fim da jornada, nada mais de extraordinário acontecera. Tudo foi tranqüilo e, ao desengatar a carga no pátio de uma enorme indústria, ele fez questão de perguntar ao encarregado: “Afinal, o que tem aí”.

    A contra gosto, o encarregado comentou: “São restos humanos não reclamados de um velho cemitério de indigentes que a prefeitura vai desativar. Nós oferecemos nosso forno para incinerar tudo com segurança”.

    Então, o velho caminhoneiro entendeu tudo.




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  • Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2008

    O NOVATO.


    A casa era linda! Uma construção sólida, em centro de terreno, cercada por um jardim imenso e perpetuamente florido. Árvores enormes ladeavam a construção e agiam como um isolamento natural contra os ruídos vindos da cidade. O ar puro, os pássaros e o pequeno lago que havia na propriedade proporcionavam um ar de interior aquele imóvel encravado no meio de uma das cidades mais povoadas do planeta.

    A compra foi fácil. Não havia concorrentes e o antigo proprietário pediu um preço estranhamente baixo. Apesar do corretor negar veementemente, uma rápida caminhada pelas casas vizinhas e uma conversa informal com os moradores; trouxe o motivo do preço baixo a tona: A casa tinha fama de ser mal assombrada.

    Secretamente ele ria muito com toda aquela superstição idiota. Como, em pleno século vinte e um, as pessoas ainda acreditavam em fantasmas e “almas penadas”. Estava para casar e, mesmo sendo um profissional bem remunerado, ele não conseguiria comprar nada como aquele imóvel por preço semelhante.

    Com satisfação fechou o negócio e contratou uma empresa para deixá-la como queria. Só ocuparia a casa após o casamento. Seria uma surpresa para sua amada e não via a hora de observar sua reação de espanto e alegria.

    O casamento aconteceu e, como ele previa, sua esposa ficou simplesmente maravilhada com a magnífica casa. Cumprido o ritual da entrada no colo do noivo, ela desatou a correr pela casa, aos gritinhos e gargalhadas. Exclamando: “Que maravilha! Noossaa, como é enorme!”

    Resto do dia foi gasto apenas com amor. Passaram horas fazendo amor e, depois de saciados e cansados, foram toar um banho e prepararem-se para comer. Os amigos, muito atenciosos, já haviam contratado um serviço de jantar completo que os aguardava. Tudo era um sonho de felicidade.

    Mas, não demorou muito e os problemas começaram. Logo na segunda semana, ao chegar em casa do trabalho, ele encontrou a mulher nervosa e chorando num canto da cozinha. Perguntou o que acontecera, e ela disse que vira um homem na casa e escutara alguém revirando as gavetas e armários nos quartos. Ele riu e a abraçou: “Deve ser sua imaginação por ficar sozinha, nesta casa enorme” – Ele tentava confortá-la.

    “Eu sei o que vi” – Ela rebatia convicta. Mas ele nunca vira nem ouvira nada de anormal na casa. Nem mesmo quando a visitara sozinho durante as obras. Creditava o comportamento da mulher ao desejo de mantê-lo em casa.

    Mas sempre que chegava em casa, ela estava em frangalhos. Passou a descuidar da aparência e a relaxar com a casa e a comida. Alguns cômodos fediam e a louça se acumulava na pia. A desculpa era sempre a mesma: “O homem me persegue”.

    O pranto da esposa era tão dramático que ele acabou contratando uma médium para “limpar” a casa. A mulher nada encontrou de anormal e após “limpar” o bolso dele, foi embora. Aquela foi a gota d’água. Ele teimava para que a mulher saísse e passasse mais tempo na cidade. Ela, sempre nervosa e chorando muito, se negava a sair da casa. Parecia presa por algo mais forte do que ela. Estaria enlouquecendo? Esse era o pensamento dele. Afinal, a mãe dela e uma tia viviam num sanatório no interior. O “esgotamento nervoso” parecia ser algo de família.

    Aos poucos, o amor e a afeição deram lugar ao repúdio e ao cansaço. Ele mal parava em casa agora. Sempre evitava chegar cedo para ter de aturar as choradeiras, reclamações e, o já tradicional, “ataque fantasma” que ela teimava em reiterar todas as noites.

    No fim, ele acabou pedindo o divórcio. Já estava com outra mulher e, mesmo ainda amando sua esposa, não podia mais suportar a vida que levava. Quis deixar a casa. No entanto, foi ela que arrumou as malas rapidamente e disse que jamais voltaria ali. Ele acabou ficando sozinho naquela casa enorme.

    Cansado, deprimido e pensando no que fazer para ajeitar sua vida, dali para diante; acabou adormecendo no sofá da sala. Não sentiu o tempo passar e mergulhou num sonho sem sonhos. Lá pelas três horas da manhã, foi acordado por barulhos altos vindos do andar superior da casa. Parecia que alguém brigava e rolava pelo piso de madeira, fazendo um escarcéu.

    Apanhou a arma que guardava no escritório, junto à biblioteca, e subiu as escadas correndo. O barulho continuava e sugeria uma enorme confusão. Mas estranhamente, tudo estava em ordem e imaculadamente arrumado. Começou a ouvir gritos, ofensas e um falatório cada vez mais alto. Da cozinha, o barulho de panelas e copos caindo, fez com que descesse as escadas e corresse para o cômodo. Novamente, nada. Tudo na mais perfeita ordem.

    Ouviu um grito seguido de uma gargalhada atrás de si. Voltou-se e viu, perto da porta do corredor, a figura de um homem. Devia ter uns cinqüenta e poucos anos; cabelo levemente branco e feições enrugadas. Mas, o mais terrível, eram os olhos. O olhar vomitava ódio e asco. A boca levemente retorcida sugeria uma vontade de maltratar qualquer um que atravessasse o seu caminho. Sentindo uma enorme angústia, ele interpelou o homem: “Quem é o senhor e o que quer?”- Impassível, o velho continuava fixando-o com o olhar de ódio. Mais uma vez, ele perguntou: “Quem é você e o que quer? Se não responder nem sair daqui, vou chamar a polícia”.

    Sua voz tremia levemente, e traía sua intenção de exprimir firmeza. O velho riu e, apesar disso, seu olhar continuava a transmitir o ódio profundo que sentia. Nada fazia; nada dizia; apenas o fitava com aquele olhar malévolo e penetrante.

    Apavorado e tremendo muito, ele sentiu que perderia o controle a qualquer momento, sem pensar, ergueu a arma e disparou várias vezes contra velho que, sem nada dizer, apenas continuava olhando-o. Já desesperado, tentou correr e atirar-se sobre a janela. Pensava apenas em sair dali e ficar o mais longe possível. Agora entendia todo o desespero que a esposa vivera ali e todo o terror que sentia; ma não conseguiu mover-se.

    Dias depois, seus pais vieram visitá-lo. Como não atendia ao telefone, resolveram aparecer e ver o que acontecia. Pela porta, o cheiro forte de podre se fazia sentir e dominava o ambiente. Como ninguém atendia, chamaram a polícia que arrombou a porta. Tudo para depararem-se com o corpo dele, já em decomposição, caído na sala; bem próximo à entrada do corredor. Já estava ali há dias. Uma necropsia relatou a morte por infarto.

    Após o funeral e alguns meses depois, a casa foi a leilão e um novo casal ocupou o imóvel. Numa noite, o marido ao chegar do trabalho, encontrou a mulher no jardim. Estava aos prantos e tremia muito. Ao perguntar o que havia acontecido e o que a assustara tanto; ela, ainda chorando, disse-lhe que vira um velho andando pela casa, com um olhar maligno. Atrás dele, continuava ela, haviam vários homens que lutavam entre si. O velho os olhava com um ódio profundo e gargalhava vendo-os maltratarem um outro espírito que chamavam, aos gritos, de “novato”.

    Naquela mesma noite, eles deixaram a casa.




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