
No Japão feudal havia um homem, um guerreiro, conhecido por sua honra e pela excepcional perícia no manejo das armas. Seu nome tornou-se uma lenda tão grande que mesmo após séculos de sua morte, seus feitos ainda são lembrados no mundo inteiro. Seu nome fazia tremer os maus e os inimigos que atravessavam seu caminho. Sua ferocidade e destreza em combate assombraram o mundo e tornaram a Katana (a espada samurai) uma das armas mais cobiçadas por guerreiros e colecionadores até os dias de hoje. No entanto, inexplicavelmente, no auge de sua fama e glória, esse guerreiro abandonou tudo; recolheu-se a um mosteiro e lá ficou até o final de seus dias. Não se sabe ao certo o que o levou a deixar a vida militar e a dedicar-se ao espiritual. No mosteiro, lançou as bases de uma filosofia de vida que presa o amor e o respeito ao Humano. A evolução através do estudo e da espiritualidade. Seu tratado filosófico, “Os Cinco Anéis”, tornou-se conhecido e lido até hoje por todo o planeta. Ao morrer, escreveu seu nome, mais uma vez, na galeria dos imortais da humanidade. Miyamoto Musashi.
Dizem que esse foi o motivo:
Após a derrota de Kojiro, os clãs estavam em guerra novamente, a morte era uma constante nas províncias e nas terras de ambos os senhores. A movimentação de tropas nas estradas e os embates se davam durante o dia e a noite. Sem distinção, homens, mulheres e crianças eram alvo das espadas sedentas de sangue. Musashi opunha-se fortemente a essa prática. Não havia honra em combater quem não podia defender-se.
Numa manhã de inverno, um destacamento efetuava uma patrulha nos arredores da aldeia de Miyamoto quando, na estrada, um velho sentado bem no meio do caminho das tropas meditava. O velho, aparentemente, não carregava nada consigo além de uma pequena caixa. Estranhamente uma energia emanava do ancião e pairava sobre a pequena estrada de terra como uma ameaça silenciosa. Acostumados a combates sangrentos, os soldados adiantaram-se e admoestaram o velho para que saísse do caminho.
Impassível, o franzino ser de barbas brancas e testa protuberante, ergueu seus olhos para os ameaçadores soldados e, com um sorriso triste nos lábios, disse: “Não posso. Carrego um presente para o Grande Musashi”.
Irritados, os soldados tentaram removê-lo à força. Contudo, o franzino ancião, parecia pesar toneladas. Intrigados e amedrontados sacaram suas espadas e tentaram golpear o velho. Ante os olhares assustados e atônitos de todos, suas espadas quebraram-se ao tocar o frágil pescoço do velho. Que, com um sorriso irônico, fechou os olhos e mergulhou em sua meditação profunda.
Os soldados mais novos fugiram assustados em uma correria desabalada e sem rumo, aos gritos debandaram desordenadamente para as montanhas. Os guerreiros mais experientes sentiam que estavam diante de alguém poderoso e místico. Enquanto um deles dirigiu-se a aldeia para convocar Musashi, os outros se sentaram ao redor do velho mestre num profundo e respeitoso silêncio.
Com a chegada de Musashi, os guerreiros postaram-se atrás de seu líder e aguardaram curiosos o desenrolar da estranha conversa. O honrado guerreiro aproximou-se do velho e num gesto respeitoso, curvou-se para cumprimentá-lo sentando-se em frente a ele.
Sem dizer nada, o velho franzino, tocou a testa de Musashi e este pode ver toda a trajetória de vida do velho mestre. Os combates, contra os chineses, a unificação do Japão, os duelos com grandes vultos históricos e a revelação das Grandes Verdades.
Intrigado, Musashi percebeu que aquele velho franzino e de aparência simples; sentado impassivelmente diante dele naquela estrada empoeirada numa manhã de inverno, era um ser muito antigo e poderoso. Era um Buda Ancestral.
Face ao espanto do guerreiro, o velho mestre estendeu seus braços e entregou a ele a pequena caixa. Musashi, a tomou em suas mãos e a abriu. Estava vazia.
Intrigado e irritado olhou asperamente para o velho buscando um sentido para aquela perda de tempo. Nenhuma palavra foi trocada, nenhum gesto foi feito. O velho mestre disse apenas: “Olhe novamente”.
O guerreiro destemido olhou incrédulo para a caixa que ainda estava aberta sobre suas pernas. Do fundo, uma tênue luz brilhava tímida e hipnótica. A sua frente o bravo podia ver inúmeras guerras e combates acirrados com armas estranhas e uniformes desconhecidos. Animais marinhos gigantescos que cuspiam homens nas praias e homens que cuspiam fogo sobre os outros homens. Trovões que ecoavam e erguiam colunas de fogo e fumaça aos céus. Corpos que eram mutilados sem que nada os tocasse; animais grotescos arrastavam-se pela terra vomitando a destruição indiscriminada; pássaros de prata que rugiam assustadoramente e lançavam seus ovos mortais sobre as criaturas abaixo. Morte, fogo, gritos e confusão por toda parte; não havia honra naquela forma de combate. De repente, o sol desceu do céu e cobriu com suas chamas mortais seu amado país. Era como um mar de fogo líquido derramando-se e cobrindo tudo. Só restavam fumaça e cinzas.
Os guerreiros que formavam um círculo à volta de seu mestre e do velho, assistiam calados e concentrados a um espetáculo inimaginável, uma lágrima, rolava na face do formidável guerreiro.
Pela primeira vez em suas vidas, sentiam medo e estavam preocupados, foram atingidos por um vento forte e quente que parecia vir do interior da pequena caixa. Um vento poderoso que levantava o pó da estrada e cobria toda a paisagem ao redor do grupo. Alguém notou que, ao longe, tudo parecia tranqüilo e intocado. E, novamente; eles temeram por suas vidas.
Tão repentinamente como começou, o vento parou. O velho havia desaparecido. Musashi estava de pé à frente de todos, sem dizer uma única palavra, partiu pela estrada levando consigo a pequena caixa. Apenas anos depois, agora anciãos, aqueles guerreiros souberam que seu antigo mestre recolhera-se a um mosteiro e nunca mais entrou em combate ou duelou novamente.
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