Quarta-feira, 29 de Agosto de 2007
A CARTA.
Naquela manhã, acordei muito cedo e meio deprimido. Estava frio, chovia e a cama era o único lugar em que eu gostaria de estar nesse dia horrível. Minha mulher dormia um sono profundo e tranqüilo; aos pés da cama, meu gato e meu cachorro dormiam juntos e em harmonia, numa atitude que poderia espantar algumas pessoas. Com muito custo, me levantei e fui ao banheiro. O frio do piso e dos azulejos caiu sobre mim como um açoite. Após tomar um banho e o café da manhã, fui até a porta da frente apanhar o jornal. Antes de abrir a porta, pensei milhares de vezes se valeria à pena encarar a rua, mesmo que por instantes, ou voltar correndo para a cama, onde minha mulher dormia quentinha. Tomei coragem e abri a porta. Uma lufada gélida e úmida me encobriu e imediatamente comecei a tremer. Corri, meio atrapalhado, e fui até o pequeno nicho no muro onde ficavam os jornais. Mas, naquela manhã, havia algo diferente: Sobre os jornais, havia uma carta. A sensação de frio me abandonou por completo e deu lugar a uma curiosidade imensa. A carta não trazia carimbo dos correios; logo, alguém tinha enfrentado a chuva e o frio para deixá-la ali bem cedinho. Apressei-me em entrar e fui logo abrindo a carta. Ela dizia: “Meu filho, talvez você não se lembre de mim. Sou a mãe da Ana, lembra? Aquela sua amiga de quem você gostava tanto...” Imediatamente me lembrei de Ana. Minha paixão mais intensa e a única mulher que amara na minha vida. Quando a conheci ela já era casada e tive medo de me declarar. Ficamos amigos e, apesar de sentir que também ela nutria mais do que amizade por mim, ambos nunca tiveram a força para declarar seu amor. Após sofrer muito, resolvi me casar com outra garota e nunca mais a vi. A carta continuava: “...Ela anda muito deprimida separou-se do marido e mudou de cidade. Está sozinha e sente-se abandonada. Ela sempre falava de você com um amor muito especial e, nos últimos anos de casada me confidenciou que te amava e se arrependia de não ter se declarado. Estive com ela hoje e acho que vai cometer uma loucura. Está tão deprimida e perdida. Temo por sua vida. Você poderia telefonar e conversar com ela? Talvez, se ouvisse a sua voz novamente ela melhorasse e mudasse de idéia. O endereço dela é Rua das flores, 84 casa 1; e o telefone é 3333-3214. Espero que você me ajude; coração de mãe não se engana. Um beijo Maria Alice”. Mesmo tendo rompido com Ana magoado e, após ter recebido uma carta dela dizendo coisas horríveis sobre mim, eu ainda a amava muito. Sonhava com ela todas as noites e ansiava revê-la há muito tempo, aparar as arestas e reviver nosso amor. Aquela seria a desculpa perfeita. Gostava de minha esposa, mas aquela vida chata e sem emoção me sufocava. Ana era meu sol, minha alma e minha luz. Antes mesmo de acabar de ler a carta, já tinha decidido: Mais que ligar, iria atrás dela. Como morava numa outra cidade, isso implicava numa viagem de quatro ou cinco horas. Vestido como estava, deixei um bilhete para minha esposa sobre a mesa, peguei o carro e parti em direção à Ana. Na estrada, corria acima do limite, um misto de apreensão e nervosismo tomava conta de mim e eu traduzia isso em mais velocidade. Dei sorte e fiz a viagem em três horas e meia. Ainda não eram nem onze horas da manhã quando cheguei à rua onde ela morava. Parei em frente ao número oitenta e quatro e... não sai do carro. O medo estava lá de novo. Que loucura. Deixei um casamento e filhos pra trás por uma pessoa que não via a mais de oito anos. E se ela me escorraçasse? Nesse momento me lembrei do que a mãe dela disse na carta: “Ela sempre falava de você com um amor muito especial..” Reuni minhas forças e, saindo do carro, chamei no portão da casa. Uma mulher linda, com cabelos negros compridos e volumosos, corpo torneado e feições bem delineadas apareceu na varanda: Era ela. Ao me ver, sorriu e seu rosto se irradiou com uma luz que eu nunca tinha percebido. Abriu a porta e convidou-me para entrar. Já na sala, sem dizer-me uma única palavra me enlaçou com um abraço apertado, quente e cheio de amor. Cobriu-me de beijos, tão intensos, que estranhei seu comportamento. O que havia acontecido a ela? Ainda abraçada e colada em meu peito, ela chorava como se buscasse proteção e retorno a uma vida passada. Ficamos ali por um tempo que não podia ser medido. Era como se o mundo parasse apenas para aquele momento. Imediatamente, eu soube que nunca mais sairia dali. Pediria o divórcio e jamais a abandonaria novamente. Eu estava em casa. Ainda chorosa, ela me contou que, pouco antes de eu chamá-la, estava preparando-se para se suicidar. Dizendo isso, retirou um pequeno frasco com calmantes do bolso e me mostrou. Sentia-se arrependida de não ter tido coragem de assumir nosso amor no passado e sentia-se sem forças para continuar. Minha presença salvara a sua vida. Emocionado, disse que ela devia isso à sua mãe e mostrei-lhe a carta datada daquele mesmo dia. Ela não acreditou e perguntou se eu estava brincando. Expliquei tudo o que se passara naquela estranha manhã. Mais uma vez, em prantos, ela apertou a carta de encontro ao peito e disse que a mãe, com quem morava, havia morrido na semana passada. Compare preços de: Câmeras - Cestas Para Presentes - Flores - Presentes Especiais - Livros Celulares - Toques Para Celular - CDs - DVDs |








