
Estava Jesus pregando quando um homem aproximou-se e prostrando-se diante dele disse desesperado: “Senhor, tende piedade de meu filho. Pois é lunático e sofre muito; ora cai no fogo, ora na água... Já o apresentei a teus discípulos, mas eles não o puderam curar.
Olhando para os discípulos, Jesus disse com visível exasperação: “Raça incrédula e perversa, até quando hei de aturar-vos? Até quando estarei convosco? Trazei-mo”.(*)
Os discípulos correram e trouxeram um garoto. Ele se contorcia, babava e gritava blasfêmias horríveis contra Deus. Jesus ergueu sua voz e num tom áspero, que todos estranharam disse: “Quem és tu? Designa-te em nome de meu Pai”.
Do garoto, brotou uma voz profunda e antiga. Os que se juntavam para observar o ocorrido, não conseguiam entender o que a estranha voz que saía do garoto falava. Era um idioma antigo e já abandonado a muitas gerações. Contudo, o rabi que se proclamava Jesus, parecia compreender o que “a voz” dizia. As pessoas se assustaram e algumas correram, quando com um grito rouco e profundo o jovem rabi, num ímpeto, estendeu seus braços sobre o jovem caído e um estrondo alto e horrível, acompanhado de um tremor leve no solo fizeram-se sentir.
Um odor fétido e nauseante tomou conta do lugar, apesar de estarem ao ar livre. Aos poucos, o jovem ergueu-se e chorando abraçou o rabi e depois seu pai. Agradecido, o velho homem beijou as mãos de Jesus que afagou, com carinho, seu rosto molhado por lágrimas.
Seus apóstolos intrigados cercaram Jesus e perguntaram: “Rabi, por que não conseguimos expulsar esse demônio?”
Jesus, como se falasse com crianças, disse estendendo os braços como se quisesse abraçar a todos: “Esta é uma espécie de demônio que não conheces. Eles só podem ser repreendidos e expulsos com muita oração e jejum. Apenas uns poucos podem enfrentar tamanho poder”.
Os discípulos se olhavam e se perguntavam o que havia sido dito entre Jesus e o demônio que estava no jovem. Foram para junto de Jesus, conversando sobre o ocorrido e tecendo inúmeras hipóteses sem, contudo, coragem para expressá-las.
Enquanto se afastavam, um homem os observava montado num magnífico cavalo negro. Uniforme da legião romana e ar de coragem e força irradiando de seu rosto duro como pedra. Jesus, ainda de costas para o homem, interrompeu sua caminhada e disse apenas: “Aproxime-se”.
Surpreso, o centurião, desceu do magnífico animal e reverenciando o estranho homem aproximou-se, ainda cauteloso. Seu elmo brilhava sob os raios fulgurantes do sol e sua presença era responsável por uma aura de honra e honestidade. Jesus, estendendo suas mãos para o romano, pergunta como se já soubesse: “Qual teu nome, cidadão de Roma?”
“Caius Flavius Quintilius, centurião da Legião de César”. Respondeu com orgulho indisfarçado o romano.
Jesus, com um olhar estranhamente manso e cândido tocou a testa do romano e, diante dos atônitos discípulos, começou a proferir palavras incompreensíveis para todos. Nesse instante, todos viram uma luz brilhante e ofuscantemente potente golpear e penetrar a armadura e o elmo do centurião. Uma brisa forte passou pelo grupo envolvendo todos numa nuvem de poeira que lhes cobria a visão. Tudo não durou mais que alguns segundos. E, quando terminou, o imponente centurião estava caído, de joelhos, abraçado a Jesus. Chorava.
Jesus, erguendo o homem, disse-lhe: ”Tu serás meu discípulo mais importante. Agirás nas sombras como o inimigo que combatemos. Serás desconhecido e viverás a parte dos homens, porém entre eles. Tua força e tua alma pura o trouxeram até mim. E o Pai quer tua força a nosso serviço. Quando eu retornar a casa de meu Pai. Tu tomarás a lança daquele a quem chamas de Longinus. Forjarás com ela, a espada pela qual Eu e meu Pai expulsaremos os altos demônios e as crias de Lúcifer. Para isso, deverás contar apenas com tua fé inabalável e com a autoridade que te dou agora. Quando chegar a tua hora de voltar ao Pai, aguardarás aqui, até que encontres outra alma que tome teu lugar e cumpra a tua missão divina. Conserve a fé e confie nos emissários de meu Pai que virão te ensinar as artes necessárias para combater”.
Dizendo isso, das dobras de seu manto, retirou um pequeno pergaminho escrito e entregou ao romano. Os discípulos encararam uns aos outros sem nada entender. Nunca haviam visto o mestre escrever nada. A eles, nada havia sido mostrado. O que conteria o estranho documento?
Caius Flavius Quintilius, após a crucificação e morte de Jesus, tomou a lança de um soldado responsável pela crucificação, Longinus, e desapareceu da guarnição romana de Jerusalém. Suas terras e família em Roma, nunca mais o viram. Seu nome nunca mais foi ouvido no império.
Os discípulos de Jesus acabaram por esquecê-lo e nunca citaram sua existência nos evangelhos. A passagem dele pelo mundo foi apagada e envolta na poeira dos séculos. No entanto, as forças no inferno aprenderam a conhecê-lo muito bem. Desde então, ele ficou conhecido como: “A Sentinela”.
(*) Mateus Cap. 17; Versículos 14-17
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