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    Quinta-feira, 2 de Agosto de 2007

    O TEMPERO.


    O casal Nélio e Ana Silva eram velhinhos bondosos. Queridos pela comunidade, tinham um açougue, conhecido em toda a cidade pelas maravilhosas lingüiças e salsichas que produzia. Um tempero maravilhoso, sabor único, alta qualidade e higiene primorosa, faziam com que pessoas de várias partes da cidade, e até de outras cidades vizinhas, se acotovelassem todas as sextas-feiras em frente ao pequeno açougue que funcionava em baixo do pequeno sobrado amarelo construído por eles mesmos, quando se mudaram há uns vinte anos atrás.

    Apesar de todos adorarem o sabor inigualável dos embutidos feitos por eles, corria entre a criançada e os vizinhos mais antigos que, o segredo do sabor inigualável era, na verdade, a carne de gato e de cachorro. Que, misteriosamente, começaram a desaparecer das ruas do bairro, mais ou menos na época em que eles abriram o açougue.

    Mesmo assim, não havia quem não tivesse saboreado e se deliciado com os fantásticos petiscos. No início, o pessoal até ficava ressabiado e se comentava, a boca pequena, o estranho fato do desaparecimento dos animas de rua. Contudo, com o passar do tempo e como ninguém nunca achou nada no açougue nem o lixo dele, que denunciasse a morte dos animaizinhos, o boato ficou apenas nisso: Um boato.

    Além disso, a simpatia e o sorriso sempre largo e a conversa sempre cheia de alto astral, acabaram cativando todos e tornando o casal, membro bem-vindo na vizinhança e nas casas de todos. E sempre que era perguntado, "seu" Nélio dizia orgulhoso: "O segredo é o tempero!"

    Numa manhã de inverno, o frio era violento. Naquela cidade calorenta, isso era uma novidade. Nunca antes, os termômetros baixaram tanto. “Seu” Nélio, abria o açougue como em todas as manhãs, quando soltou um gemido doído. A mão levada ao peito, a cara retorcida num sinal indelével de dor aguda. Sentindo-se morrer, tentou em vão gritar para dona Ana que o ajudasse. Desmaiou ali mesmo. Um vizinho que passava e viu toda a cena, chamou uma ambulância e ficou com “seu” Nélio até que ela chegasse. Infelizmente, o pobre velho não resistiu e acabou morrendo na calçada.

    Dona Ana, inconsolável, chorava e gritava, abraçada fortemente ao corpo do seu companheiro de tantos anos e de tantas lutas. Nesse tempo, toda a vizinhança se unia à dor da pobre mulher com gestos de carinho e palavras de consolo. A mulher, no entanto, estava catatônica e parecia ter se enterrado em sua dor imensa. A comoção foi total.

    O enterro transcorreu normalmente e, na missa de sétimo dia, que foi organizada e paga pelos vizinhos e fregueses do querido casal de velhos. Mas a pobre dona Ana era a imagem da destruição. Arrasada; não falava nem chorava. Apenas estava ali; imóvel e alheia a tudo. Parecia que tinha morrido também. E, aquele corpo que andava amparado por amigos, era apenas uma casca oca de carne. Todos ficaram solidários com a pobre mulher.

    Por fim, umas duas semanas após a missa, o que todos temiam; mas tinham como certo, aconteceu. No aconchego do lar, dona Ana suicidou-se com um tiro na cabeça. Sem parentes ou filhos, a vizinhança, se reuniu e se cotizou para bancar as despesas do funeral e das missas. A consternação foi total. Mas, enfim, o drama da pobre mulher acabara.

    Um dia, a prefeitura chegou com caminhões e pessoal para arrombar o açougue. Os impostos atrasados, já que não deixaram herdeiros, fizeram com que tudo fosse a leilão e agora, eles preparavam-se para demolir o local; transformando-o em um centro comunitário.

    Os trabalhos começaram. Primeiramente, os utensílio do açougue foram retirados e colocados na calçada. Entre eles um, em especial, chamava a atenção: Uma enorme banheira de aço inox foi trazida e colocada ao lado de um dos caminhões. Ao mesmo tempo, homens que esvaziavam as câmaras frigoríficas, cheias de carnes já apodrecidas, atentaram para o fato de enormes quantidades de ácido sulfúrico e clorídrico, estocadas no interior do açougue. Intrigados, chamaram a polícia e a perícia.

    Ficaram dias revirando o lugar. Cada pedra, cada buraco, cada reentrância foi verificada e analisada. A vizinhança, curiosa, acompanhava passo a passo o desenrolar dos acontecimentos. Em dado momento, todos os policiais entraram no imóvel. Um suspense pairava sobre todos e tornava o ar pesado. Cada vez mais pessoas se aglomeravam para ver o que acontecia. Era difícil para os policiais conterem a multidão.

    Do interior da construção, os policiais começaram a sair com sacos de um material em pó e pardacento. Pilhas de roupas, sapatos, bolsas, envelhecidos e esfarrapados; eram trazidos e empilhados na calçada. Os peritos encostavam-se nos caminhões e vomitavam. Um ar de nojo e apreensão tomava conta dos técnicos e dos policiais calejados e vividos. O povo amontoado no cordão de isolamento começou a ouvir os diálogos entrecortados e a distância entre os policiais: “...Meu Deus nunca havia visto nada igual”. “Cara o que é isso?” “...Horrível!”

    Não podiam entender o que ocorria. O que de tão horrível havia ali? Ninguém conseguiu saber. Os funcionários da prefeitura se foram, os policiais lacraram o local e, igualmente, foram embora; ficando apenas uma viatura para garantir que nenhum curioso violasse o lugar.

    Coincidentemente ou não, no mesmo momento, um morador de uma rua do bairro era preso por crueldade contra os animais. Foi pego, em flagrante, com a sua van cheia de cães e gatos abatidos a pauladas. Acabou confessando que era ele que fazia “a limpa” nos bichos de rua do bairro. Detestava aqueles animais “zanzando” pelas ruas e emporcalhando tudo. A notícia correu e, quando souberam do ocorrido, os vizinhos do casal de velhos, sentiram-se envergonhados e aliviados por terem achado que os velhos eram os responsáveis e que utilizavam as carnes para fabricarem aquelas deliciosas lingüiças e salsichas.

    A multidão acabou se dispersando. Mas, a curiosidade era tamanha que as conversas se seguiram até a noite. Quando todos foram obrigados a se recolher. Durante o jantar, as famílias continuavam discutindo o que teria ocorrido no velho sobrado amarelo. Ao mesmo tempo, na televisão, o jornal dava a notícia de que um bondoso casal de velhos de um bairro pacato da cidade raptava matava e usava a carne de crianças da periferia como matéria prima pra preparar lingüiças e salsichas. Depois, dissolvia os restos numa enorme banheira de aço inox usando ácido e enterrava o que sobrasse no quintal, junto com as roupas e pertences das vítimas.

    Nunca mais, aquelas pessoas, comeram uma salsicha ou uma lingüiça.

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