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    Domingo, 12 de Agosto de 2007

    A PROFECIA.


    Quando ele nasceu, seu pai, orgulhoso, ergueu-o acima da cabeça e vaticinou: “Serás famoso!”

    Sempre cercado de amor e cuidados, sua vida apresentava-se como um inacreditável conto de fadas. Boa casa, boas escolas, as amizades certas, os pais certos, enfim; tudo indicava que ele tornar-se-ia um grande homem com um futuro brilhante.

    Isso até os doze anos; quando um caminhão desgovernado na estrada ceifou a vida de seus pais e deixou o menino órfão. Sem parentes diretos, foi entregue a tutela do Estado. Enviado a uma instituição, que na realidade era um verdadeiro depósito de enjeitados, era agredido e violentado quase que diariamente. Logo, aprendeu as técnicas e as táticas para sobreviver no meio hostil. Era inteligente, com um QI acima de 220. E, se não sofresse aquela guinada na vida, teria sido um grande gênio científico.

    Pulou de lar em lar. Sempre que era adotado seu comportamento, agora irremediavelmente arredio e violento. Impedia sua adaptação. Constantemente rejeitado e devolvido as instituições, acabou passando toda adolescência e juventude nessas instituições. Saindo, finalmente, aos dezoito anos.

    Arrumou um trabalho de entregador numa pequena lojinha e mergulhou no mar de rostos que povoavam as ruas, desaparecendo em suas profundezas. Em sua mente, ainda ecoavam as risadas e as profecias de seu velho pai: “Serás famoso!”

    O corpo foi encontrado por dois corredores no parque; logo pela manhã. Garganta cortada, mãos amputadas e largadas em formas de cruz junto aos pés da vítima. Olhos arrancados e dispostos no chão, junto ao alto da cabeça; como se tentassem observar o que vinha de trás. Tinha sido morto em outro lugar e “desovado” ali. Não havia sangue no local e pelo estado dos cortes e dos órgãos arrancados, quem fizera aquilo teve muito tempo e cuidado para fazer tudo com perfeição. Coisa de profissional.

    Com aquele, já era o sexto corpo encontrado em condições semelhantes. E, como os demais, nenhuma pista ou traço que levasse a alguma conclusão sobre o assassino. A observação óbvia era de que eles tinham um “serial killer” em mãos.

    Numa primeira olhada, nada ligava uma vítima à outra; eram: um médico, um contador de meia idade, um promotor público, um pequeno empresário e um andarilho desempregado e agora uma prostituta. Não se conheciam nem tinham passagem pela polícia. Aparentemente cidadãos normais.

    Meses se passaram e os crimes continuavam. Quem os cometia era muito esperto e ágil. Nunca cometia erros. Mesmo a força tarefa montada pelo governo estadual e os federais, envolvendo os maiores especialistas no assunto e com ajuda até de policiais estrangeiros, não obteve sucesso.

    Um dia, uma encomenda chega, pelo correio, para os detetives encarregados do caso. O remetente é checado, mas trata-se de endereço falso, como já previam; bem como nada de digitais fios de cabelo, fibras ou DNA. No pacote; cartas, fotos, confissões assinadas, e mapas com a localização de diversos esconderijos e de mais corpos a serem identificados.

    Ali estava a ligação entre as vítimas. Algo inimaginável que havia passado totalmente despercebido por todos. Algo que ninguém sequer cogitara, dada a total falta de indícios. Naquele pacote, estavam as provas para a elucidação de centenas de crimes cometidos ao longo de vários anos e, até agora, insolúveis:

    O Médico: Escolhia jovens nas estações do metrô e após seduzi-las, as levava para um pequeno sítio na região serrana. Um lugar isolado e ermo. Lá ele as violentava, e as fatiava ainda vivas. Alimentando-se de sua carne na frente delas. Levando horas até matá-as. Depois, os corpos eram queimados e as cinzas enterradas.

    O Contador: Caçava prostitutas e, após acertar um falso programa, as levava até um abatedouro clandestino onde moia seus corpos nos moedores industriais e depois oferecia a carne para igrejas e obras de caridade.

    O Promotor: Em casos de pena capital, escondia provas que inocentariam os acusados ou forjava provas que os incriminassem; pelo simples prazer de assistir seu tormento e depois poder violentar os corpos após a execução, mediante uma gorda propina paga na prisão. Em sua confissão ele disse que “tinha amor pela inocência”.

    O Empresário: Pequeno industrial da área médica falsificou um lote de remédios fornecidos para asilos de todo o país, causando a morte de milhares de idosos. A química usada na falsificação não deixava traços, por ser semelhante a original, porém barata e inócua. Gostava de vangloriar-se quando lia as manchetes com as notícias sobre as mortes inexplicáveis em asilos. Sorria ao dizer: “Meus remédios são perfeitos”

    O Andarilho: O mapa contido na caixa levou a polícia a um bosque fora da cidade onde, numa caverna com a entrada camuflada com folhas e galhos, encontraram mais de trinta esqueletos de crianças.

    Todos, assim como a prostituta e os demais, eram assassinos em série. Isso era o que os ligava. O mais estarrecedor, é que continuariam matando, por vários anos ainda, sem deixar qualquer suspeita. Os policiais estavam estarrecidos e preocupados com o novo matador. Aquele homem (ou mulher) era muito superior a tudo o que eles haviam visto.

    Na manhã seguinte, os jornais estampavam as manchetes: “MATADOR DE ASSASSINOS A SOLTA!”

    Do outro lado da cidade, o rapaz franzino, fazia suas entregas com sua surrada bicicleta. Ao passar pela banca de jornal da esquina, leu as manchetes. Um sorriso satisfeito e quase imperceptível escorregou por seus lábios quase sempre inexpressivos. Antes de prosseguir com as entregas, pensou: “Agora sou famoso papai!”




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