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    Quinta-feira, 13 de Setembro de 2007

    O ANEL.


    Estava na estrada já há várias horas, aquelas eram minhas primeiras férias em muitos anos de trabalho duro. O sol brilhava agradavelmente, derramando seus raios sobre a natureza exuberante as margens da rodovia. Estava meio cansado e, ao passar por uma ponte sobre um riacho, vi um campo limpo; com relva e árvores a perder de vista. Parecia saído de uma pintura magistralmente retratada pelas mãos de um mestre.

    Parei o carro e apanhei minha vara de pescar novinha. Aquele seria um lugar excelente para brincar um pouco e dar uma relaxada após horas dirigindo. Escolhi uma árvore frondosa e com um tronco quase liso, que se debruçava nas margens do córrego e preparei ali meus apetrechos.

    Faltavam apenas as iscas. Mas, com aquela terra maravilhosa a minha volta, o que não deveria faltar eram minhocas. Comecei a cavar buracos e a encher uma lata com as mais gordas minhocas que eu já vira.

    Estava cavando um desses buracos a uns cinqüenta metros da árvore quando, o sol, fez alguma coisa brilhar em meio a terra: Era um anel. Devia estar enterrado ali há muito tempo. Apesar disso não apresentava sinais de corrosão, isso indicava que era feito de um material nobre, e a julgar pelo brilho dourado que o sol ressaltava; só podia ser de ouro.

    Ao longo do arco do anel, tanto na parte de fora, quanto na de dentro, havia inscrições e desenhos cuidadosamente feitos por um habilidoso ourives. Maravilhado, levei o anel para o rio e o limpei cuidadosamente. Ele agora brilhava mais e as inscrições e desenhos, saltavam aos olhos. Sem pensar duas vezes, estiquei minha mão e coloquei o anel em meu dedo.

    Quase de imediato, senti um pulso elétrico percorrer meu corpo violentamente e desmaiei. Não sei por quanto tempo fiquei caído ali. Só lembro que, ao acordar, minha cabeça doía muito e o sol ainda brilhava com a mesma intensidade. Mas algo havia mudado radicalmente.

    A minha volta, o campo as árvores e a relva, deram lugar a muros, casas, prédios e muitas; muitas pessoas. Elas vestiam-se estranhamente e passavam por mim como se não me vissem. O ar era impregnado por aromas deliciosos de comidas e temperos. Animais de carga faziam seu trabalho ruidosamente pelas ruas e as crianças corriam de um lado para outro numa gritaria divertida e alucinada.

    Tentei chamar a atenção dos que passavam, mas ninguém me via. Desisti e comecei a caminhar para o centro da vila. As ruas eram estreitas e apinhadas de gente. Eu estava confuso; não sabia como fui parar ali e nem onde estava meu carro. Olhava desnorteado ao redor e não conseguia me situar. Acabei chegando ao que parecia ser um mercado. Homens enormes e fortes destrinchavam aves e vários animais com suas facas e cutelos; ali mesmo, no meio da rua. Uma verdadeira cena medieval. Ao fundo, do outro lado da rua, um homem de aparência estranha me olhava fixamente. Diferentemente dos outros habitantes do lugar, aquele velho parecia perceber a minha presença.

    Intrigado e ansiando por uma resposta, comecei a caminhar na direção do velho. Vi claramente quando ele virou-se e fez menção de ir embora. De repente, ele pareceu mudar de idéia e caminhou em direção a mim. Nos encontramos no meio do mercado. Ele parecia ser bem velho, eu diria que estava na casa dos oitenta anos. Contudo, sua voz era firme e decidida, seus olhos brilhavam com a luz própria dos grandes sábios. Com uma voz cheia de ternura e mansidão ele, tomando a iniciativa, disse: “Esperei você por muito tempo. Venha, há muito que ver e aprender, mas pouco tempo”.

    Andamos em silêncio pelas estreitas ruas e, agora, as pessoas se voltavam e nos observavam quando passávamos. Algumas sorriam e nos cumprimentavam com simpatia; outras tinham seus olhos inchados por lágrimas contidas e mergulhavam na proteção de suas casas sem nos dirigir a palavra.

    Curioso, perguntava insistentemente ao velho o que era aquilo; o que havia acontecido e onde eu estava. Como se falasse para uma criança, o velho sábio me dizia que essas eram perguntas sem importância. Que era necessário apenas, que eu prestasse atenção a minha volta e visse as pessoas, falasse com elas e visse como viviam.

    Numa rua escondida, onde havia muitas oficinas de artesãos, um garotinho aproximou-se de nós e, sem dizer uma única palavra, esticou as mãos oferecendo-me uma caixa de madeira, comprida e magnificamente entalhada com animais e inscrições num alfabeto que eu desconhecia. Ao abri-la, pude ver o interior ornado com filigranas de ouro e algumas pedras preciosas. Um conjunto lindo e de excelente bom gosto. No fundo da caixa, um pergaminho. Quando o desenrolei, pude ver imagens pintadas e escritos que eu não conseguia entender; perguntei ao velho o que significava aquilo. Sorrindo, me disse que aquele pergaminho era uma relíquia muito valiosa. Ali estavam expressas, suas lendas, leis e toda a história de sua civilização; bem como as bases de sua religião. Continuou afirmando que, o pergaminho, só era entregue a pessoas muito importantes; o que significava uma grande honra.

    Continuamos caminhando e o sábio convidou-me a sentar no que parecia ser uma praça. Como ficava numa elevação, a praça dominava toda a paisagem e, de lá, podíamos contemplar a cidade inteira. Suas construções simples, mas com uma lógica precisa e cuidadosamente decoradas e coloridas. Os sons e o burburinho do mercado e das pessoas era carregado pelo vento e podia ser ouvido como uma melodia. Com lágrimas nos olhos, o velho tomou minhas mãos e falou: “Você foi trazido aqui, para que nos conhecesse. Para que lembrasse de nós e para que visse o que aconteceu. Daqui a uns momentos, tudo isso vai acabar e você, em todo planeta, será a única alma, a saber, o que aconteceu”.

    Enquanto falava, elevou seus olhos ao céu e entoou o que parecia ser uma prece. Nesse exato momento, o sol pareceu brilhar com mais força. Pude ouvir claramente um ruído alto e estridente, como de um avião mergulhando. Olhei para cima e o que vi me horrorizou.

    Uma gigantesca bola de fogo caía do céu em direção a vila indefesa abaixo de nós. A população, em pânico, corria tentando fugir do inevitável extermínio. Como baratas, corriam sem direção e muitos se atiravam no rio que cortava a cidade, sendo tragados pelas águas revoltosas. O barulho agora era insuportável, tentei correr também, mas o velho me segurava com força. Olhei para seu rosto num gesto de desespero e ele, impassível e com um sorriso nos lábios, balançou a cabeça negativamente. No fundo, eu sabia que ele estava certo, de que adiantaria correr, aquela bola de fogo enorme arrasaria tudo num raio de muitos quilômetros. Sentei ao seu lado, chorando e soluçando como uma criança, e aguardei o impacto.

    O meteoro atingiu a vila bem no centro. A explosão pulverizou mais da metade das casas em um átimo de segundo. Um silvo alto e ensurdecedor acompanhou o surgimento de um enorme cogumelo de fogo, com um brilho ofuscante e maior do que o do sol elevou-se na paisagem. Uma onda de choque atingiu o que sobrou da vila e das pessoas que corriam como uma mão gigante. Seus corpos voavam pelo ar, juntamente com o entulho das construções. Ao mesmo tempo, o calor emanado pelo cogumelo pulverizava seus corpos e tudo em que tocava. Estranhamente, isso não nos afetava. Continuávamos observando a cena do alto da colina, sentados calmamente no banco da praça. A paisagem mudara radicalmente, onde esteve a cidade, agora apenas um imenso buraco fumegante restara. Algumas pessoas ainda se arrastavam pela encosta da colina onde estávamos com os corpos terrivelmente queimados. O céu estava negro e tomado pela fumaça densa que subia em rolos grossos. Foi aí que algo aconteceu:

    Uma onda de calor veio percorrendo a planície e subiu pela colina com uma velocidade assustadora. Era possível ver os incêndios iniciando-se por onde ela passava. Os poucos sobreviventes do impacto e das ondas de choque finais, eram reduzidos a cinzas quase que imediatamente ao serem tocados pelos ventos infernais. Ainda sentado, senti o calor me atingindo em cheio. Mas, desta vez, algo estava diferente. Podia sentir minha carne queimando até os ossos, numa dor inacreditável. Tentei gritar buscando o ar que me faltava...

    Abri os olhos. Estava suado e tremia muito. O sol ainda brilhava alto no céu. Estava ofegante e chorava. Ao meu redor, o riacho corria manso e os pássaros cantavam com alegria no alto das árvores. Tentei me acalmar. Respirei fundo algumas vezes. Sentia meu coração disparado e uma dor lancinante na cabeça. Lembrei do anel e do choque. Deve ter sido alguma descarga elétrica que me apanhou perto do rio. Talvez um cabo enterrado ou um relâmpago caído ali perto, sei lá. Aquele pesadelo ainda me apavorava. Levantei-me e fitei o campo: Nada mudara. Lá estavam as árvores, as flores e a relva; até onde a vista alcança. Suspirei e dei um sorriso meio sem graça.

    Apanhei minhas coisas e voltei correndo para o carro. Continuei pela estrada até a cidade mais próxima. Chegando lá, almocei e me hospedei num hotelzinho simpático para descansar um pouco e seguir viagem no dia seguinte. No quarto, uma nesga de sol que invadia a janela, fez brilhar o anel em meu dedo. Olhando-o, lembrei-me do estranho pesadelo daquele dia e o retirei, jogando-o sobre a cama. Apanhei minha bolsa, precisava tomar um banho e trocar de roupas antes de comer, enfiei a mão e toquei em algo que não deveria estar ali. Quando puxei de volta, caí sentado no chão do quarto. Era uma caixa de madeira, ricamente entalhada, e dentro, havia um pergaminho.

    Emocionado, apanhei o anel e o coloquei sobre o pergaminho aberto. Eu havia presenciado a extinção de uma civilização inteira de forma imediata e sem vestígios. Como uma testemunha que viajara pelo abismo do tempo, havia sido eleito para trazer de volta à luz a vida daquelas pessoas. Silenciosamente, fiz uma prece.



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