
Padre Amâncio era um jovem sacerdote de uma pacata cidade do interior. Aos trinta e poucos anos; muitos diriam que ele estava no auge de sua forma física e beleza. Dotado de um corpo esculturalmente talhado como se fosse feito de um único bloco de mármore nobre, era adepto das artes do fisiculturismo e da boa saúde. Sorriso fácil e carismático, além de rosto angelical; causou furor entre as beatas e as não tão religiosas da cidadezinha. Rapidamente, as missas passaram a ficar lotadas de mulheres que, aos domingos, vinham até das cidades mais próximas. As más línguas trabalhavam ferrenhamente, dizendo que o “Deus” que elas admiravam era na verdade o jovem sacerdote.
Todas as manhãs, ele despertava os olhares maliciosos das matronas casadas e das jovens casadoiras ao passar em seu curto short e camiseta regata, correndo pela praça principal da cidade e exercitando-se no pátio da igreja. O suor banhando seu corpo perfeito e fazendo-o brilhar ao sol.
Com o passar dos meses, Padre Amâncio viu-se cada vez mais alvo de propostas indecentes e situações vexaminosas provocadas por mulheres ensandecidas que o desejavam. Novamente, as línguas ferinas comentavam que a filha do “Seu“ Joaquim do mercado surpreendeu o jovem padre ao deitar-se, totalmente nua, em sua cama na casa paroquial. Com justiça, contavam também que o santo homem ao deparar-se com a cena, a abraçou gentilmente e enrolou-a com os lençóis, enquanto entoava uma prece.
Começaram a pensar que ele era gay e, escandalizados, alguns moradores da região afastaram-se da igreja. Mas, esses boatos logo foram deixados de lado, quando a história da dona Ângela, uma das mulheres mais bonitas da cidade e esposa do prefeito, caiu na boca do povo.
Dizem que, numa noite, ela e uma amiga pularam o pequeno muro da casa paroquial e conseguiram chegar até o quarto do padre sem serem percebidas. Lá, ficaram aguardando e, quando padre Amâncio chegou, e despiu-se para tomar um banho, o atacaram. O jovem, instantaneamente, respondeu as carícias e ao fogo das duas mulheres. Não havia repulsa ou asco. Havia sim, um desejo reprimido e enorme, naquele corpo de Adonis.
Mas, quando tudo indicava que teriam uma noite de sexo inimaginável, o jovem Amâncio pareceu ficar indiferente e uma prece quase inaudível, escapava de seus lábios. As mulheres o atacaram de várias maneiras possíveis e inimagináveis. Mas, as reações antes tão fortes e presentes naquele corpo másculo e definido, acabaram completamente. Dizem que elas ficaram tão envergonhadas, que fugiram da cidade naquela mesma noite e abandonaram seus maridos e a vida de pecados; indo acabar num convento da capital.
Pouco a pouco, os atentados e o furor sexual sobre o jovem padre foram acabando. Paralelamente a isso, a fama de sua fé, devoção e vocação inabalável, percorriam as cidades vizinhas e os lugares mais distantes da nação. Passou a ser considerado um santo pelos moradores locais. E as missas atraíam cada vez mais fiéis. Começaram até a inventar estórias de “milagres” e aparições sempre que Padre Amâncio fazia uma prece. O negócio tomou tal proporção que, um dia, até o bispo apareceu naquele fim de mundo para visitar a paróquia. Novamente, as fofoqueiras do lugar, inventaram que o Bispo viera confessar seus pecados com o Santo Padre.
O tempo passou, as coisas acabaram se acomodando e o Padre Amâncio continuava na cidadezinha, recusara várias promoções para paróquias maiores e mais importantes e, com isso, o amor dos fiéis locais também cresceu.
Num dia de verão, um ônibus vindo do Rio de Janeiro, chegou à cidade. Dele, apenas um único passageiro desceu; ou melhor, uma passageira: Uma mulher maravilhosa, morena, corpo esculpido minuciosamente, seios magníficos, grandes, duros e bem torneados; cabelos compridos que se derramavam em cachos negros até quase abaixo do quadril; olhar sensual e capaz de derreter qualquer coração por mais duro que fosse. Ela caminhou pela calçada e dirigiu-se ao hotel local, se é que aquela pensão melhorada podia chamar-se de hotel. Em seu trajeto, os homens praticamente largavam o que estavam fazendo para olhá-la e babavam acompanhando seus movimentos suaves e sensuais a cada passo do caminho.
Na recepção do hotel, um sorriso farto e convidativo, hipnotizou o recepcionista; uma voz de anjo brotou de sua boca carnuda encantando os ouvidos masculinos que já se amontoavam na porta do pequeno hotel. Apesar de perceber o desejo e a curiosidade que despertava, ela fingia estar alheia a tudo; pediu um quarto registrou-se e subiu as escadas. Dezenas de mãos fortes ofereceram-se para carregar suas bagagens, mas foram gentilmente repelidas. Verdadeiramente ela era uma visão mágica.
A vida na pacata cidade continuou, a espetacular morena carioca, passou a integrar a vida e o imaginário masculino local. Em todo lugar, festas pululavam sempre como pretexto para que famílias locais a convidassem para uma comemoração onde, o único objetivo, era fisgá-la para casamento ou apenas para uma noite de prazer. Mas, apesar de ser de uma grande metrópole, ela era recatada. Não caindo nas armadilhas masculinas.
Apenas um homem parecia despertar seus desejos: Padre Amâncio.
Freqüentava a igreja todos os dias e acompanhava o padre, pelas manhãs, em sua corrida matinal e seus exercícios. O clima entre eles parecia ser de amizade respeitosa. Mas, como sempre, as más línguas da cidade, diziam que em breve mais uma se desencantaria com aquele homem másculo, bem feito e totalmente devotado a Deus.
Um dia, a morena esperava o padre Amâncio no confessionário. Queria um alento para sua alma perturbada. Solícito, o jovem padre sentou-se e escutou, pacientemente, a confissão da bela jovem: “Meu pai me amava muito, sempre me tratou com amor e carinho. Mas num dia, ele quis que eu fosse mulher de um homem que eu não conhecia. Ele apenas nos apresentou e disse que eu era feita para aquele homem; muito mais velho do que eu. Além disso, queria que eu obedecesse ao homem cegamente; sem manifestar minha vontade ou questionar suas ordens, por mais absurdas que fossem. Me revoltei e pedi a meu pai que reconsiderasse. Ele ficou furioso, me baniu e expulsou-me de casa; dando minha irmã em casamento aquele homem desconhecido. Eu o amaldiçoei, ele e minha irmã, e entreguei-me a um desafeto de meu pai. Nem eu nem meu pai nos falamos mais desde então. Nós nos odiamos. Ao final da história dramática, ela chorava copiosamente. Enternecido, o jovem padre, disse-lhe para conversar com o pai e pedir perdão; certamente ele a perdoaria, afinal qual pai não quer seus filhos junto de si. Deu-lhe a absolvição e estava retirando-se do confessionário quando ouviu um baque surdo atrás de si. A jovem desmaiara e jazia no chão, imóvel.
Padre Amâncio olhou, a sua volta, em busca de auxílio, mas não havia ninguém na igreja. Sem dificuldades, abaixou-se a apanhou o corpo inerte da mulher no colo. Imediatamente, o cheiro doce e envolvente, elevou-se daquele corpo escultural e se espalhou pelo ar ao redor dos dois. O padre sentia o desejo invadir seu corpo, enquanto carregava a mulher para a sacristia. Ela era diferente de tudo o que vira até então. Uma aura de mistério, paixão e beleza pura, envolvia aquela sedutora figura. Deitou-a carinhosamente num banco e buscou o telefone para chamar o médico da cidade. Nesse momento, sentiu as mãos delicadas e quentes dela o enlaçando. Virou-se e no interior dos olhos da mulher, viu um fogo estranho e sedutor, o calor espalhou-se e envolveu seu próprio corpo e sentia que a resposta sexual era imensa e imediata. Pensou na prece que sempre fazia nesses momentos e que sempre o ajudara. Mas estava confuso e sentia um desejo tão forte e poderoso que era impossível resistir.
Estava imóvel. A mulher deslizava as mãos ávidas por seu corpo e despertava sentimentos adormecidos há muito tempo. Sua boca sensual e experiente explorava cada área de pele e cada reentrância do sacerdote com uma habilidade inacreditável. Amâncio, pois já não era padre; era apenas um homem faminto e desesperado de prazer, largou-se no chão da sacristia e entregou-se, de vez, aos avanços da mulher. Rasgando suas roupas, ela cavalgou-o com uma maestria sem igual, envolvendo com suas coxas grossas e bem feitas os quadris do homem. Numa explosão de êxtase, Amâncio sentiu-se penetrar nas profundezas daquele corpo escultural e magnífico.
Ficaram ali, um invadindo o outro, por um longo tempo. Próximo ao clímax, Amâncio abriu os olhos, queria olhar o rosto daquela mulher maravilhosa. Queria que ela percebesse a felicidade que o proporcionava, queria vê-la gozar.
Contudo, o que viu o deixou estarrecido. A linda mulher transformara-se num ser disforme que exalava um odor fétido e penetrante de podridão e fezes. De sua boca, antes tão sensual, a língua enegrecida e cheia de pústulas, lambia seus lábios fendidos e cheio de vermes que ele, a pouco, beijara com tanta volúpia. Os olhos, antes tão cândidos e carinhosos, eram agora imensos buracos negros dos quais vertia um líquido purulento e esverdeado.
Tentou escapar empurrando a figura pérfida para longe. Mas, com uma força descomunal, ela o prendeu, segurando seus braços ao lado de sua cabeça. Estava indefeso e a mercê daquele demônio.
Enquanto rebolava freneticamente sobre o padre, a estranha figura, gemia e gritava maldições horríveis a Deus e aos homens. Cavalgava o pobre Amâncio cada vez mais rápido até que pareceu atingir o clímax e deixou-se cair sobre o peito nu do jovem. O cheiro de fezes e decomposição era mais intenso e sufocante. E permaneceu nessa posição pelo que parecia ser uma eternidade para Amâncio.
Sem aviso, ela ergueu-se num movimento rápido e olhando com desprezo para a figura violada e indefesa a seus pés disse: “Diga a meu Pai que Seus filhos ainda são fracos e estúpidos. Diga a Ele que jamais voltarei. Diga que eu O odeio por ter-me entregue a Adão e depois ter me banido. Diga que eu O acho um maldito covarde. E que continuarei pelo mundo a mostrar-Lhe o quão vis são essas criaturas de vontade frágil que ele criou e tanto ama”.
Encolhido num canto e fragilizado, Amâncio entendeu quem era a sedutora mulher-demônio: Era Lilith, a primeira mulher, que amaldiçoara Deus e recusara a entregar-se a Adão. Sendo banida do Éden e entregando-se como esposa para Lúcifer.
Após aquele dia, Padre Amâncio nunca mais celebrou uma missa, retirando-se para um convento distante onde morreu de desgosto pouco depois.
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