
Mais uma noite daquelas, a cidade estava agitada, o calor abafado e úmido que fazia parecia inflamar os ânimos e botar fogo em tudo. As ocorrências violentas explodiram. Tiroteios se espalhavam pela cidade e estávamos em alerta constante a mais de uma semana. Dessa vez, íamos a toda para um possível assalto com reféns no centro. Fazer parte de uma unidade de elite tinha desses inconvenientes: Ser chamado a qualquer hora e não ter direito a nenhuma vida social.
Passamos pela avenida central em alta velocidade, o comboio de viaturas cortava o trânsito com uma habilidade inacreditável. A qualquer momento, achávamos que o motorista perderia o controle e nos espalharíamos pela rua como bonecos de trapo. No interior apertado do furgão, olhávamos uns aos outros sem nos falarmos. Concentrados e após um estudo minucioso da planta do local, sabíamos o que fazer e, cada um, repassava o que deveria fazer mentalmente. O calor e o sacolejar do veículo, somados ao som estridente das sirenes, fazia com que caíssemos num tipo de transe próprio das altas doses de adrenalina que inundavam nossos corpos nesses momentos.
Apesar de não termos uma baixa há anos, sabíamos que a possibilidade existia e treinávamos muito para que não acontecesse nada errado. Estávamos prontos e éramos os melhores. O resto, bem, era com a sorte.
Eram quase seis e meia quando chegamos ao local. Um prédio de escritórios alto e com apenas uma entrada. Ia ser fácil. Espaços apertados são mais propensos a causar pânico nos bandidos quando nos viam. Sabiam que não tinham para onde fugir e, nos enfrentar, significava a morte.
Entramos no prédio e passamos pelo hall de entrada que estava apinhado de policiais, subimos pelas escadas até o quinto andar onde dois homens mantinham alguns trabalhadores como reféns num escritório. As escadas e os elevadores estavam tomados pela polícia. Eles não tinham como escapar e, mesmo assim, recusavam-se a se entregarem. Isso era um problema; indicava que estavam desesperados e que o desfecho seria violento.
Chegamos ao andar e deslizamos pelos corredores em formação. Era estranho, para um observador desavisado, agíamos sem praticamente nenhuma comunicação verbal, o treinamento e a convivência eram tão intensos e prolongados que cada movimento era feito naturalmente e já sabíamos o que cada um faria e como se moveria sem precisarmos nem pensar.
Na entrada do escritório, nos concentramos para a invasão. Essa era a parte mais perigosa. A soleira da porta é conhecida como “área de matança”. Quando se invade um local quem entra pela porta está vulnerável a qualquer ataque. Por isso é a parte mais dura de qualquer treinamento.
Um pequeno aríete cuidou da porta, que se abriu num estrondo. Cabia a mim entrar primeiro desta vez; sempre nessas situações revezávamos quem entrava primeiro, com o escancarar da porta, mergulhei pela abertura e procurei meu alvo. Percebi um clarão a minha direita e uma pancada forte e seca do mesmo lado da cabeça; desmaiei.
Não sei por quanto tempo fiquei apagado. Mas acordei e estava tudo escuro. Cambaleante, cheguei até a janela e olhei para a rua: Pessoas corriam de um lado para outro, incêndios se espalhavam pelos prédios vizinhos e bem na minha frente, alguém se atirou da janela do prédio do outro lado da rua e arrebentou-se na calçada. Era um caos infernal.
Esse pensamento trouxe de volta as lembranças do que havia acontecido. Olhei em volta e não vi ninguém na sala. Nem os criminosos, nem ninguém da minha equipe. A dor na cabeça voltou como um lembrete, mas vívido e percebi que havia sido baleado. Tirei o capacete e pude ver, claramente, o amassado próximo à têmpora. Levei as mãos, instintivamente ao local do ferimento, e nada. Não havia sangue, ferida ou curativos. Nada.
Ainda sem entender bem o que se passava, fui até o corredor; estava deserto. Para onde foram todos? Como me deixaram ali; sozinho e ferido? O que estava acontecendo? Resolvi descer as escadas e toar satisfações com o comandante. Isso era totalmente irregular e injustificável. Cheguei ao hall de entrada e os policiais que apinhavam o lugar quando chegamos haviam desaparecido também. Eu estava só.
A gritaria na rua chamou minha atenção, saí e o que vi me deixou de queixo caído: Pessoas corriam em pânico, carros atiravam-se sem qualquer motivo aparente sobre as multidões que corriam descontroladas. Um homem veio correndo em minha direção uivando de dor. Seu corpo estava em chamas. Tentei ajudá-lo, mas era tarde demais; ao tocá-lo sua carne desprendia-se dos ossos. Ele deveria estar morto, mas continuava em sua correria louca pelas ruas.
Um som alto, como um grito estridente, chamou minha atenção para o céu. Criaturas aladas e de aparência estranha voavam num céu negro e carregado. Asas enormes e membranosas, corpos esguios e musculosos com cabeças disformes e sem aparência definida. Elas pareciam não ter rostos. Vez por outra, mergulhavam sobre a multidão que corria nas ruas e capturavam alguns indivíduos. Com uma facilidade incrível, erguiam-nos com suas garras poderosas e os levavam para o alto dos prédios. Lá, banqueteavam-se com suas entranhas e atiravam o que restava sobre a multidão confusa. As pessoas que se atiravam dos prédios, caiam ao chão com gritos lancinantes, mas não morriam. Correndo e gritando, subiam novamente ao alto dos prédios e atiravam-se de lá; vez após outra.
Aquilo não fazia o menor sentido. O que teria acontecido para deixa o mundo louco assim? E aquelas criaturas? Seriam alienígenas? Uma mulher jovem e bonita passou correndo por mim. Gritava de dor, enquanto ratos enormes saltavam sobre ela e a devoravam viva. Por mais que corresse ou se debatesse, eles não a soltavam. Junto a ela, três crianças pequenas, quase de colo, choravam e prendiam-se as suas pernas; as cabeças inchadas e mal formadas pendiam grotescamente de seus pescoços finos e desnutridos.
Meu pânico era total. Apesar de estar acostumado a momentos de tensão e medo, nada me preparara para aquilo, sem entender o que acontecia, procurei um abrigo e escondi-me sob uma pequena construção que parecia abandonada. Lá fora, alheios a minha presença, aquelas criaturas horríveis e pessoas enlouquecidas e desesperadas continuavam em seu ritual dantesco. Levei a mão à cintura e saquei minha pistola. Só podia ter ficado louco. E, explodir os miolos, me pareceu uma idéia agradável. Pelo menos me livraria daquelas visões terríveis.
Nesse momento, uma enorme aeronave pairou sobre a multidão ensandecida. Era imensa. Deveria ter mais de cinqüenta metros de comprimento e parecia um enorme avião, mas não possuía asas. Apesar do tamanho, pairava elegantemente e em silêncio sobre os prédios altos e nem uma única brisa se levantava com a sua presença.
As criaturas aladas fugiam rapidamente quando as portas laterais do veículo se abriram e dois homens, trajando roupas reluzentes saíram do ventre da estranha nave. Eles pareciam flutuar no ar e desciam suavemente sobre a rua apinhada de gente. A confusão e o caos reinantes, momentos antes, deram lugar a uma calma estranha e ansiosa. As pessoas que antes corriam desesperadas cercaram os visitantes e falavam sem parar, pediam ajuda.
Alguns dos tripulantes da nave começaram a reunir as pessoas que se amontoavam perto deles. Os que não eram selecionados tinham que ser repelidos com violência, uma vez que ameaçavam atacar aquelas figuras estranhamente pacíficas. Um desses seres abandonou a multidão de rostos suplicantes e olhando em direção ao local onde eu estava escondido, veio caminhando a passos largos até mim. Surpreso e apreensivo, recolhi-me na escuridão do abrigo, tentando passar despercebido pela estranha figura; ele, como se falasse com uma criança assustada, pediu-me que me aproximasse.
Com medo e arma em punho, saí do meu esconderijo. Ele com um sorriso cativante nos lábios disse: “O que você faz aqui meu amigo? Você é necessário em outro lugar, aqui nada pode fazer por estas pessoas. Venha conosco”.
Ao segurar a mão que me estendia firmemente, senti-me calmo e numa paz profunda. Minha percepção do lugar foi-se alterando e pude ver luzes fortes que me envolviam e davam uma sensação de paz e tranqüilidade imensas. Uma solonência suave deu lugar à tensão acumulada daquelas horas loucas e ouvi a voz da minha esposa ao longe. Ela me chamava, chorosa.
Abri os olhos e estava num quarto de hospital. A cabeça doía e latejava sem parar. A minha volta, o pessoal do esquadrão, minha esposa e filhos, sorriam ainda com lágrimas nos olhos. Perguntei o que havia acontecido com os homens que me trouxeram e com a imensa nave. Eles se olharam e começaram a rir dizendo que a anestesia era “da boa” mesmo. O médico, n aquela voz monótona e impassível de quem já está acostumado a casos perdidos, me explicou que eu havia sido baleado na cabeça. A bala tinha sido detida pelo capacete, mas o impacto tinha sido tão próximo, que os estilhaços penetravam meu crânio e só com dez horas de uma delicada cirurgia, foi possível salvar minha vida. E, mesmo assim, eu estivera declarado como morto por quase quatro minutos. Incrivelmente, não houve seqüelas e nem entrei em coma. Em casos menos graves que o meu, muitos haviam passado meses ou anos em coma. A maioria sequer havia se recuperado. Rindo ele disse: “Alguém lá em cima gosta mesmo de você!”
Então, eu entendi. De alguma forma, eu tinha visto o inferno.
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