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    terça-feira, 2 de outubro de 2007

    MINHA AMIGA.


    Naquela noite acordei suando. Apesar de não estar muito quente, sentia o suor frio escorrendo pela pele indo encharcar o lençol. Um mal estar geral tomava conta de mim e continuar deitado era impossível. Levantei e fui ao banheiro tomar uma ducha fria. Quem sabe, assim, aquela sensação ruim melhorava. Na porta do banheiro, ouvi ruídos vindos da cozinha. Cautelosamente, fui até o cômodo em silêncio, prevendo um invasor. Qual não foi minha surpresa, ao chegar lá e encontrar uma velha amiga sentada à mesa e, sorridente, dizer que me aguardava.

    Como ela tinha a chave do meu apartamento, não estranhei que estivesse ali àquela hora. Afinal, éramos íntimos e até mantivemos um caso amoroso por longos anos no passado e ela muitas vezes me surpreendia, se enfiando na minha cama sem aviso de madrugada. Mesmo agora, separados por um mal entendido e afastados há anos, sabíamos que ainda nos amávamos.

    Conversamos animadamente pela madrugada a fora. O dia já começava a raiar quando, exausto, convidei para que dormisse em minha casa. Assim, poderíamos colocar a conversa em dia; afinal, já faziam mais de cinco anos não nos víamos. Claro, me adiantei, ela poderia dormir no meu quarto enquanto eu dormiria no outro, que transformara em escritório. Ela, rindo sensualmente e colando o rosto no meu peito disse: “Você continua o mesmo bobo de sempre! Se eu estou aqui há esta hora, é porque quero dormir com você!”

    A abracei dando-lhe um beijo longo e amoroso, ali mesmo. Ela era muito importante para mim e, nossa separação, deixara marcas profundas e um amargor intratável. Sem esforço, a ergui no colo e, rindo muito, fomos para o quarto.

    Carícias, beijos, mãos, bocas e línguas. Tudo era como antes. Tudo era o mesmo e, ainda assim, surpreendentemente novo. Nos amávamos e sabíamos disso, nos separamos por contingências estúpidas da vida. Mas agora isso mudara. Nada conseguiria nos separar outra vez.

    Ficamos ali, juntos, a manhã toda e à tarde. Os corpos embaralhados num êxtase louco e delicioso. Conversas e risos, trocados com pouco tempo de intervalo, por ruídos, gemidos e palavras desconexas, próprias do gozo apaixonado. A noite começava a cair e sabíamos que deveríamos nos levantar para comer, trabalhar e fazer coisas. Mas, não queríamos nos separar nunca mais. Não queríamos que a mágica daqueles momentos se acabasse.

    De repente o telefone começou a tocar. Provavelmente, alguém do escritório me procurando. “Deixa tocar”: Pensei. Olhando para aquele lindo rosto saciado e feliz ao meu lado, não precisava de mais nada. Tudo era perfeito. Com os olhos negros brilhantes, ela sorriu e me deu um beijo carinhoso...

    O telefone berrava insistentemente, acordei suando frio. Ainda era noite. Olhei em volta: estava sozinho. “Um sonho”- Pensei triste! - O relógio sobre o criado-mudo cumpria sua eterna função e informava que eram quatro da manhã. O telefone não parava de inundar a noite com seus barulhos eletrônicos insistentes. Quem seria àquela hora? Ainda sonolento, atendi.

    Do outro lado, uma voz feminina embargada dizia: “Oi! Desculpa te incomodar, aqui é a irmã da Márcia, sei que vocês eram muitos ligados”...

    Ela nem precisou acabar de falar, enquanto eu deixava cair lentamente o telefone sobre a cama, as lágrimas brotavam e corriam pelo meu rosto sem controle. Eu já sabia. Márcia morrera e viera despedir-se de mim áquela noite num sonho. Desliguei o telefone sem dizer nada e, soluçando, murmurei uma prece.



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