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    Terça-feira, 9 de Outubro de 2007

    O CHEIRO DA MORTE.


    A noite caía sobre a cidade e, com ela, um roteiro de risos, alegrias, tristezas e todo tipo de emoções, parecia aflorar em seus habitantes. Em sua sonolência agitada e cheia de sonhos maus, a cidade trazia em suas entranhas seres fantásticos e assustadores que, como personagens de histórias míticas, vagavam envolvidos pela escuridão em seus meandros sinistros.

    Um desses personagens era o jovem Vitor. Com seus quase dois metros e dez de altura, rosto atraente, cabelos longos e fartos e comportamento sensível, era visto pelos vizinhos e colegas de trabalho como um ser dócil, prestativo, atencioso e que tinha sorte com as mulheres.

    Em seu íntimo, porém, o jovem Vitor, trazia um desejo incontido e desesperado que impossibilitava sua paz. Quando a noite caía, ele se dirigia ao centro velho da cidade, aguardava pacientemente a madrugada invadir a noite e a cidade tornar-se mais silenciosa e sonolenta. Nessas horas, instalava-se como um predador, nas vielas escuras e movimentadas aguardando suas presas.

    E, naquela noite, a primeira delas não demorou muito a aparecer, através do manto de escuridão que o protegia, percebeu a aproximação da garota. Não devia ter mais do que dez anos. As roupas velhas e sujas denunciavam sua origem nas ruas. Trazia consigo uma caixa de pastilhas que, provavelmente, vendia aos beberrões e aos namorados que vagavam pelos bares e boates da área. Ela, em sua inocência infantil, vinha caminhando diretamente para ele.

    Estava ansioso e suava. Não porque estivesse nervoso ou com medo; mas porque antevia o prazer da degustação que se aproximava a cada passo da menina. Certamente, aquela era a mais jovem que ele já possuíra e a pressão do prazer era tão grande que ele se sentia salivar e tremer.

    Ela passou a menos de meio metro dele e, mesmo assim, nada percebeu. Ele, por sua vez, ao vê-la passar sem notá-lo, vibrou em seu íntimo por sua capacidade de camuflagem na noite. Ainda se vangloriava quando avançou alguns passos e com as enormes mãos, agarrou-a com força tapando-lhe a boca.

    Num puxão rápido e tão violento que quase quebrou o pescoço da pobre menina, ele a retirou do chão e a suspendeu bem próximo ao seu rosto. Sem conseguir respirar e atordoada, ela foi trazida de volta à ação pelo fedor horrível que aquele homem gigantesco exalava. Tentou chutá-lo. Mas, erguida no ar, nada tocou. Duas mãos fortes como garras mecânicas a impediam de emitir qualquer som. Lutou, esperneou, tentou socá-lo e chutá-lo novamente, tudo em vão.

    As mãos poderosas agora se fechavam ao redor de seu delicado pescoço. Enquanto eram apertadas com força descomunal, ela desesperada, percebia que ele a aproximava do rosto. Tentou arranhá-lo, mas já não tinha forças. Estava no limiar da morte, quanto sentiu que o gigante a cheirava. Percorria seu corpo franzino e delicado com suas narinas atentas a cada odor e a cada exalação de seu corpo moribundo. Nem quando sentiu o conteúdo de seus intestinos e bexiga derramarem-se pelas calças, em seus últimos momentos, deixou de sentir que ele a cheirava com volúpia.

    Enquanto ela morria, ele saboreava os aromas e as sensações que se desprendiam daquele corpo desfalecido. Conforme a vida a abandonava e seus olhos se embaçavam com o toque misericordioso da morte, ele sentia os cheiros que despertavam as lembranças de sua infância sofrida. As dores dos espancamentos feitos pelo pai com arame farpado, a omissão silenciosa da mãe e o principal, a primeira vez que sentiu aquele cheiro doce e inebriante. Quando, mais crescido, matou os pais com as próprias mãos numa noite fria de inverno. Desde então, ele caçava para reviver aquele momento de libertação e vitória. Aqueles aromas especiais que perfume algum possuía. Que nada no mundo era capaz de imitar e que só ele conhecia: O Cheiro da morte.

    Largou o cadáver inerte e já sem a mesma essência divina no chão do beco e mergulhou nas sombras novamente. Ia para casa, afinal, a noite estava acabando e amanhã; bem, amanhã ele tinha que trabalhar.




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