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    Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

    O LIVRO. (2)


    Estava cansado. O dia no trabalho tinha sido difícil e seu chefe aproveitara para descontar suas frustrações nele. Estava aborrecido. Sempre executava seu trabalho com empenho e se considerava o melhor empregado daquela empresa. Nem se incomodava quando seu chefe roubava suas idéias e as apresentava como suas. Por isso mesmo, ele detestava quando aquele imprestável burocrata despejava seu veneno em cima dele.

    Desceu as escadas da estação do metrô e preparou-se para enfrentar mais meia hora num trem abarrotado e cheio de gente fedorenta. Detestava aquilo. Já economizara bastante e pretendia comprar um carro o mais rápido possível. Mas, naquele dia, a plataforma estava estranhamente vazia. As poucas pessoas aguardando o metrô comentavam que parecia um milagre. Na verdade, ele sabia que tudo se devia ao estúpido show que se desenrolava lá em cima. E a multidão descerebrada preferiu enganar-se mais um pouco com a música de péssima qualidade e com cervejas baratas do que correr, como todos os dias, para seus lares e suas vidas insignificantes. Sorte a dele.

    O trem chegou e, as pessoas que nele estavam, se derramaram pelas plataformas correndo para as escadas. Provavelmente, iriam se juntar aos outros idiotas no show. Entrou e sentou-se confortavelmente no banco de plástico. Um pensamento o atormentava: Estava se tornando uma pessoa amarga e reclamona. Justamente o que ele mais detestava. Percebia que perdia completamente o interesse pela diversão e pelos prazeres da vida. Algo que ele prezara tanto no passado.

    Imerso nos pensamentos e nos aborrecimentos, não percebeu que as portas se fecharam e que o trem partiria. O solavanco da arrancada o fez bater a cabeça no ferro do banco de trás. Soltou um palavrão e, enquanto esfregava o local da batida, desviou sua atenção para o assento a seu lado.

    Largado sobre o banco estava um livro. Olhou em volta e, como ninguém se manifestou, apanhou-o e começou a examinar seu achado. Era um livro grosso e sem figuras; o título era: “O Livro”. Tinha sido escrito por um autor do qual ele nunca ouvira falar. Certamente, fora lido muitas vezes. Pois suas páginas estavam cheias de “orelhas” e o papel já era amarelado e frágil. Parecia ser muito antigo.

    Como tinha tempo, começou a lê-lo “só para sentir como era a estória”. O livro contava a vida de um homem que após vender sua alma ao demônio, conseguia vingança contra seus inimigos e fortuna. Após anos o camarada finalmente encontrava a morte através de uma artimanha do mesmo demônio que escrevera um livro que ele achara e a quem tinha vendido a alma.

    “Que coisa mais clichê!” – Pensou. Vai ver que foi por isso que ninguém nunca ouviu falar desse autor. Nesse momento, o maquinista avisou pelo autofalante que sua estação era a próxima parada. Levantou-se e guardou o livro na pasta; “só por via das dúvidas”. Saiu do metrô e mergulhou na multidão de pessoas que se amontoava pelas ruas em direção as suas casas.

    Chegou, tomou um banho e jantou. Sua mulher, como sempre, não parava de reclamar da vida: “Falta isso; falta aquilo; aquilo outro acabou, etc...” A beleza e a graça que os aproximara, a muito, havia deixado seu rosto e seu corpo. Tinha consciência de que ela também sentia isso; contudo não se separavam. Passavam os dias se irritando.

    Lembrou do livro que achara e foi até o quarto, afinal, teria alguma distração até o sono chegar. Deitou-se e começou a ler. Incrivelmente, a estória ficou tão interessante que ele se surpreendeu devorando página após página, com uma avidez incomum. A estória era tão parecida com a sua que chegava a dar medo: Um chefe que se aproveitava do personagem, uma mulher que ele não amava mais; um trabalho monótono e sem futuro; amigos falsos e aproveitadores; enfim, parecia que ele estava sendo descrito em cada linha.

    No livro, o personagem era instigado pelo demônio para que tomasse as rédeas de sua vida nas mãos. Para que deixar que outros se aproveitassem de suas idéias? Para que permitir que pessoas medíocres o chefiassem? Para que aturar uma mulher que já não o atraía e nem o satisfazia? Pior; não o respeitava.

    Embalado pelos conselhos do demônio, o personagem toma coragem e assassina seu chefe e sua esposa; estranhamente, a polícia nada encontra que o incrimine. Sem o chefe que roubava suas idéias, ele passa a ser respeitado na empresa e a ser assediado por concorrentes. Fica rico e famoso. Casa-se novamente e é feliz. Até que o demônio cobra a dívida do acordo e o arrasta para o inferno, justamente, no auge de sua felicidade.

    Quando acabou de ler, percebeu o adiantado da hora. Sua mulher já roncava ao seu lado. Tinha sido uma grande leitura. Nunca havia lido um livro inteiro num único dia. Sentia-se contente e pensou: “Como seria legal se demônios existissem e eu pudesse me livrar desses chatos que me colocam pra baixo”. Mesmo temendo a cobrança final, achava que o risco valeria a pena. Pensava que, na hora “H”, conseguiria enganar o diabo e continuar vivo. Adormeceu com esse pensamento e um sorriso de alívio nos lábios.

    Na manhã seguinte, está revigorado. Levanta antes do despertador e parte para o trabalho. O metrô lotado como sempre; sacoleja hipnóticamente pelos trilhos e, em sua mente, uma idéia fixa: “A partir de hoje, chega de ser capacho e de aturar desaforos”.

    Chegando no trabalho, seu chefe estava mais chato do que no dia anterior. Reclamando sem parar, o perseguiu pelos corredores da empresa vomitando impropérios e gesticulando; cuspia em todas as direções. Ele, calmo e sem responder a uma provocação sequer, entrou no banheiro do andar; sempre sendo seguido de perto pelo chefe, que continuava gritando. Lavou as mãos e o rosto. A água estava surpreendente morna e agradável. O som da voz esganiçada do chefe ecoava pelo banheiro e penetrava seus ouvidos sem causar emoções. Virou-se e, num impulso rápido, empurrou o homem que gritava para longe de si num movimento brusco. O chefe surpreso desequilibrou-se, cambaleou perdendo o equilíbrio e tropeçou numa lixeira. Ao cair, bateu violentamente com a cabeça no mictório e estatelou-se no chão. Com calma e frieza incomuns, ele aproximou-se do corpo inerte e testou o pulso: estava morto.

    Nervoso e preocupado olhou em volta e percebeu que ninguém mais estava no banheiro ou nos corredores. Saiu dali apressadamente e voltou ao trabalho, como se nada estivesse acontecendo. Após alguns minutos, o Office-boy chega desesperado, contando que encontrara o chefe caído no banheiro. Uma ambulância é chamada. Mas já era tarde.Com a chegada da polícia e da perícia, todos os empregados são entrevistados; circuito interno de TV é checado; mas, naquela área não há câmeras. A perícia conclui que foi um acidente: Provavelmente, ele escorregara e tropeçara numa lixeira, batendo com a cabeça ao cair.

    Os patrões, consternados, liberaram todos mais cedo. Voltou para casa, ainda exultante. Que coincidência! Como no livro o personagem matara o chefe com um empurrão no banheiro. Pensou que agora, finalmente, livre daquele chato aproveitador sua carreira iria deslanchar.

    Já em casa, sua mulher com os costumeiros maus bofes, o recebeu com a frieza de sempre. Nem quando soube que o motivo de estar em casa tão cedo era a morte do chefe, ela demonstrou emoção. “Estava mesmo morta por dentro”, pensou.

    Enquanto tomava um banho, lembrou do capítulo do livro onde o personagem matava a mulher com um choque elétrico sem deixar pistas. Saiu do chuveiro vestiu-se e foi até a caixa de ferramentas. Com um alicate, voltou ao banheiro e cortou o fio terra do chuveiro e o deixou de forma que parecesse intacto no conector. Foi para a sala e esperou.

    Estava ansioso. Só lá pelas cinco horas da tarde, sua mulher resolveu ir tomar um banho. Esperou que ela entrasse e correu para a porta do banheiro. Atento, escutava o barulho da água caindo e sua mulher cantando, com aquela voz horrível "de taquara rachada", que ela achava maravilhosa. De repente, um grito. A televisão e o ventilador pararam de funcionar. Testou o interruptor de luz do corredor e... nada: O disjuntor desarmara.

    Delicadamente, chamou pela mulher várias vezes. Sem resposta. Bateu na porta com força e mesmo assim nada. Nem um ruído sequer. Arrombou a porta. No Box, caída e com o corpo contorcido, estava sua esposa. Fora eletrocutada. Calmamente apanhou as ferramentas e reconectou o fio terra do chuveiro. Foi até a sala e chamou uma ambulância e gritou por ajuda na rua. Os vizinhos acorreram e tentaram reanimar a mulher. Mas já era tarde.

    Os médicos apenas atestaram o óbito. A polícia nada encontrou de suspeito. Todos na vizinhança diziam que o casal vivia bem e parecia feliz. Não havia seguro de vida e nada que indicasse que o marido possuía amantes. Tudo apontava para um acidente doméstico comum.

    O tempo passou e ele vivia feliz. Como o personagem do livro, se safara de todos os crimes e agora tinha sucesso. Mudou-se para uma casa maior e melhor, num bairro chique da cidade. Suas idéias brilhantes o levaram ao posto de sócio da empresa em que trabalhava. Estava no auge e, há poucos dias, conhecera uma mulher lindíssima e exuberante; estavam namorando. Tudo ia bem.

    Por isso mesmo, naquela manhã, estava feliz na plataforma do metrô. Como agora morava no bairro grã-fino, ia sempre contra o fluxo de trabalhadores. Os trens sempre estavam vazios para ele. Imerso em seus pensamentos, imaginava como a sua vida mudara, simplesmente, porque lera um livro largado num banco do metrô: era incrível.

    Pensava nisso quando um homem, impecavelmente vestido, aproximou-se dele e perguntou: “Você parece muito feliz não é?”

    Olhou o estranho com desconfiança e pensou tratar-se de um policial. Mas, numa rápida olhada, concluiu que era impossível. O homem vestia roupas muito caras e elegantes para receber um salário mixo de policial. Meio sem graça, disse que os negócios iam bem.

    Com um sorriso sinistro, o homem disse baixinho: “Eu sei. Fui eu que dei isso tudo a você”. Sem entender, ele disse ao homem que não o conhecia; provavelmente o estava confundindo com outra pessoa.

    Um olhar penetrante e gélido partiu do estranho e cravou-se como uma lâmina afiada em seu peito. Antes mesmo que o homem falasse algo ele já sabia o que seria dito. O estranho sussurrou: “Ora, meu caro, você não seguiu as instruções do livro que eu escrevi pra você?”

    Suava e sentia seu coração disparar sem controle. Um medo enorme se apoderou dele. A garganta tornou-se seca e áspera. A sua volta, parecia que todos o encaravam e apontavam dedos inquisitores. Queria correr e se afastar daquele homem bonito e bem vestido, mas que ele sabia quem era. Sabia também que não teria escapatória e que seria julgado por seus crimes. No auge do desespero, correu pela plataforma quase vazia e num ato final de loucura, atirou-se aos trilhos, justamente na hora em que o trem entrava na estação. A última coisa que ouviu foi uma gargalhada sinistra vinda da plataforma.

    Joana saiu do trabalho mais cedo. Estava cansada e chateada. Seu emprego naquela firma de informática não era bem o que sonhara. Mesmo formada em TI por uma das melhores universidades do país e com doutorado no exterior, era sempre relegada a um papel secundário. Já tentara outras empresas, mas enfrentara a mesma monótona rotina preconceituosa toda vez que trocara de emprego. Estava farta. Sempre era comandada por homens idiotas e muito menos qualificados do que ela. Estava triste e sentia-se sem esperanças. Naquele dia, seu chefe tacanho, praticamente, a humilhara na frente de todos. E por um erro que ele cometera. Chorou muito no banheiro e resolveu ir para casa mais cedo, mesmo sem pedir a ninguém.

    Os ônibus estavam vazios. Finalmente iria sentada e sem atropelos para casa. “Pelo menos isso, pensou”. Pagou a passagem e sentou-se no meio do ônibus. Ao olhar para o banco ao lado, viu um livro largado sobre o assento. Apanhou-o e deu uma olhada na sinopse. “Que estranho”, pensou. Era a estória de uma mulher injustiçada e insatisfeita no trabalho que orientada por um demônio dava uma reviravolta na vida e se vingava de todos que a humilharam.

    Com um sorriso nos lábios, pensou: “Que coisa mais clichê”. Mesmo assim, guardou o livro; não tinha nada para ler mesmo.



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