Quinta-feira, 22 de Novembro de 2007
A LENDA DO SANTO GUERREIRO.
![]() Vou contar para vocês uma história real. Uns dizem que é uma lenda; outros dizem que é propaganda do governo e outros... bem... outros como eu sabem que é a mais pura verdade. Aqueles eram tempos negros. A guerra havia se instalado. Os combates eram ferrenhos e as baixas enormes de ambos os lados. Mais do que tudo, a população dos países envolvidos estava certa de que era uma guerra sem sentido e sem propósito. Tudo começara por um motivo banal; um pequeno incidente de fronteira que, noutros tempos, seria tratado com bom humor e piadinhas. Contudo a coisa mudou de figura quando um velho general obcecado por glórias do passado, achou por bem vaporizar uma das maiores cidades do vizinho com um artefato nuclear. A retaliação foi imediata. Agora, anos depois, mais de dois terços dos seres viventes dos países estava morta, o planeta inteiro sofria reflexos do derrame radioativo na atmosfera e os combates haviam sido reduzidos a uma interminável guerra de trincheiras; uma vez que as armas de destruição em massa acabaram e os pulsos eletromagnéticos destruíram os equipamentos eletrônicos. Praticamente, voltáramos à idade da pedra. Cada família seja a qual lado pertencesse, fazia de tudo para que seus filhos não fossem recrutados para as frentes de batalha. Afinal, mesmo se não considerássemos os altos índices de contaminação das frentes de combate e a escassez de alimentos e água, os combates eram tão intensos que a expectativa de vida no front de batalha era de aproximadamente quinze dias. O expediente mais adotado para esconder um filho, quando o comitê de alistamento chegava à cidade, era embarcá-lo clandestinamente para o exterior. Mas as rotas eram tão pesadamente vigiadas que muito poucos conseguiam chegar ao destino seguro. A grande maioria era capturada, processada e enviada ao front. Dizem que foi assim que ele foi capturado e obrigado a lutar. Era um jovem franzino, não mais que dezessete anos. Inteligente e muito religioso, apegava-se a sua fé como um náufrago perdido num oceano de violência. Sempre fora ridicularizado pelos colegas e amigos, uma vez que religião naquela época, era considerada algo subversivo e próprio dos covardes. As crianças eram treinadas, desde a mais tenra infância, para o combate; uma vez que o monstro voraz dos combates exigia ser alimentado por vítimas cada vez mais jovens. Sua família já havia contribuído com três outros filhos para o terrível massacre e seu pai, veterano condecorado, tinha certeza de ele não sobreviveria um único dia em batalha. Quando o comboio que o levava para fora do país foi apanhado, sua família ganhou uma sentença de morte por traição. Mal treinado e mal equipado, foi enviado para as trincheiras no front norte. Onde os combates eram mais acirrados e a carnificina era executada com requintes. Seus colegas de unidade deram-lhe o apelido de “O Santo”. Sempre que entravam em combate e durante o calor da batalha mais intensa, ele recusava-se a matar. Sempre combatia ao lado de seus companheiros e participava de todas as escaramuças. Nunca sequer foi ferido. As balas passavam por ele como se quisessem evitá-lo. Aos poucos, os veteranos do pelotão passaram a correr atrás dele nos ataques para se protegerem. Ao atacarem uma trincheira inimiga, ele apenas defendia-se e, no máximo, nocauteava um soldado inimigo com uma maestria incomum no combate corpo-a-corpo. Sua história acabou sendo contada de boca em boca pelos soldados e os comentários mais fantasiosos começaram a surgir. Preocupados, os “maiorais”, resolveram que apesar de ser uma grande propaganda, se isso se espalhasse à religião poderia voltar a ser adotada e causaria problemas nas tropas. Imagine se todos se recusassem a matar? Uma mensagem urgente chegou à unidade do “Santo”: Eles deveriam atacar as fortificações inimigas com tudo. Tomar a posição era prioridade, custasse o que fosse; mesmo que isso significasse até o ultimo homem. A intenção da ordem era clara: exterminar o batalhão e acabar com “a lenda”. Sem remédio, assim foi feito. A unidade foi deslocada e o ataque começou. Era um massacre. Do alto da colina, metralhadoras e lança-granadas traziam o inferno e a morte para quem quer que tentasse subir a elevação. Protegidas em casamatas de concreto, eram totalmente inacessíveis aos tiros de armas leves. Mesmo assim, a companhia recebeu ordem de avançar contra a barreira de fogo. Assim foi feito. Subimos em grupos pela encosta rochosa, sob uma chuva de projéteis assassinos. As baixas eram enormes e em pouco tempo, ninguém mais restaria. Nesse momento um tiro disparado não sei de onde, me atingiu em cheio no quadril esquerdo. A dor pareceu rasgar minhas entranhas e senti meu corpo ser arremessado com violência ao chão. Sabia que aquele era meu fim. Com o traje rasgado pela bala, a radiação que contaminava o lugar faria o trabalho que a bala não fez de imediato. Seria uma morte lenta e agonizante. Olhei em volta procurando, em vão, ajuda. Tudo o que vi, foi “O Santo” de pé, bem na minha frente. Como de costume, as balas voavam a volta dele sem o incomodarem. Mas ele me lançou um olhar tão penalizado que, por um momento, esqueci minha própria dor. Ele chorava. Não sei se era por causa do envenenamento radioativo ou pela perda de sangue. Quando olhei para seu rosto, pareceu-me que ele emitia um brilho tênue. Tentei puxá-lo para baixo para que se protegesse; mas, num gesto cheio de delicadeza, ele afastou minhas mãos e retirou meu capacete. Pensei em protestar, mas percebi que estava morrendo mesmo e assim seria mais rápido. Naquele exato instante algo inexplicável aconteceu: Senti meu corpo sacudido por ondas de calor intensas e dolorosas, minhas forças esvaíam-se e, quando sentia que ia desmaiar, me recompunha e sentia-me muito mais forte. A dor passara, a sensação de náusea e tontura, provocadas pela radiação sumiram. Levei minha mão ao quadril e não havia ferimento. Olhei em seu rosto e o brilho agora parecia mais intenso. Sua face transmitia uma paz indescritível. Deixou-me ali naquele buraco e avançou para o morro. Eu podia ver apenas a luz que ele emanava, em meio aquela fumaça toda e as explosões. Alguns minutos depois, os sons dos gritos e das explosões pararam. Ouvi apenas gritos de alegria e choro. Ergui-me do buraco e o que vi modificou toda minha vida: No alto da colina, as metralhadoras, morteiros e armas dos inimigos estavam derretidas e aniquiladas. Do nosso lado, o mesmo fenômeno se manifestara. Nenhuma arma em nenhum lugar estava operando. Todos se abraçavam e socorriam os feridos. Quando vieram me resgatar, perguntei o que ocorrera. Um dos médicos recusou-se a falar, mas logo que foi embora, o soldado que cuidava da maca me contou baixinho: “Foi um milagre!” – Perguntei o que ocorrera exatamente, e ele parecendo ainda incrédulo relatou: “Lembra daquele cara, “o Santo”? Pois é, ele de repente começou a brilhar e a falar um monte de coisas esquisitas; avançou sozinho sobre os inimigos e derreteu todas as armas. Quando investimos contra eles, fez o mesmo conosco. Dizem por aí que todos os armamentos, dos dois lados, foram destruídos, Não só aqui, mas nas outras cidades também. Ele começou a emitir uma luz tão forte que ninguém conseguia olhar em sua direção e... sumiu no ar. Os oficiais estão dizendo que vai ser assinado um armistício”. Mais tarde, já no hospital de campanha, percebi que aquele cara simples e engraçado era mesmo um santo.
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