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    Quarta-feira, 14 de Novembro de 2007

    O HOMEM QUE NÃO GOSTAVA DE LER.


    Era um homem medíocre. Não se formara e nem tinha um grande emprego, mas era feliz. Vivia alienado de todos os acontecimentos ao seu redor e ria muito das pessoas que se preocupavam com coisas tão absurdas quanto o aquecimento global, a possibilidade de guerra ou problemas políticos de seu país.

    Sua vida era simples e sem preocupações: De manhã ia para o trabalho, almoçava, barzinho (onde se embriagava quase sempre) e a noite, quando era possível, procurava algumas mulheres com quem poderia fazer sexo. Pensava sempre em seu irmão mais velho: “Estudara muito, conseguira um excelente emprego, devorava livros como com devora salgadinhos e de que adiantava isso? Ia morrer como todo mundo morre um dia. O negócio era levar a vida “numa boa” e sem preocupações. Falar errado? Escrever errado? Isso não o afetava nem um pouco, todo mundo fazia isso”.

    Assim o tempo passava e ele sempre naquela vida medíocre, mas sem preocupações. Num sábado, recebeu uma correspondência. Era uma novidade; afinal, o correio só entregava contas e ele detestava escrever. Seus amigos sabiam disso e nunca mandariam nada com mais de cinco linhas para ele. Já preocupado abriu o grosso envelope: Era uma carta enorme.

    Começou a ler: Era algo sobre um sorteio ou coisa assim... “Ahhh!” Pensou: “Como isso é chato. Não vou ler essa droga enorme: Estou com preguiça”.

    Dizendo isso largou a carta sobre a mesa da sala e foi para o bar. Encheu a cara e caminhou com dificuldade até sua casa, mal conseguindo abrir a porta. Todo mundo estava comentando que haviam recebido cartas estranhas pelo correio. Algo do governo dizendo que não podiam comentar sobre o conteúdo (cada um deveria ler apenas o seu e destruir a carta depois de seguir as instruções ou seria impedido de entrar no concurso). O último pensamento, antes de desmaiar de bêbado, foi: “Não vou ler droga nenhuma, aquela carta é imensa”. Mergulhou num sono profundo e sem sonhos.

    No dia seguinte, acordou lá pelo meio dia. Bebeu um pouco de água e, ao olhar pela janela, percebeu enormes caminhões militares estacionados ao longo da rua. Assustado, foi até a porta e um militar barrou sua passagem e o impediu de sair. Perguntou o que ocorria e o soldado nada falou. Um homem, bem mais velho, e vestindo um avental branco aproximou-se e perguntou o seu nome. Ele respondeu e o velho de branco após olhar numa lista, falou: “Qual a é sua senha?”

    Como ele não conseguia entender o que se passava, e ficou balbuciando palavras desconexas, o velho sem dizer uma única coisa, deu-lhe as costas e dirigiu-se para a fila de caminhões.

    O soldado obrigou-o a retornar para o interior da residência, onde ele ficou observando toda a movimentação pela janela da sala. Estava intrigado com tudo aquilo, os militares entravam nas casas, apanhavam todos os objetos pessoais das pessoas e colocavam tudo nos caminhões, após etiquetá-los e catalogá-los; as pessoas eram, então, acomodadas em outros caminhões cobertos com lonas. Parecia que todos na vizinhança estavam ali.

    Começou a ficar nervoso e preocupado. Correu até o telefone e ligou para seu irmão... Nada, no lugar do sinal de chamada, apenas uma gravação dizendo que todas as linhas estavam reservadas para ligações de emergência. Ligou a tv e a mesma coisa: apenas uma imagem fixa e uma voz repetindo até a exaustão que aquela era uma transmissão de emergência e que todos deveriam seguir as instruções contidas nas cartas que receberam.

    “A carta...” – Pensou – Olhou para a mesinha onde havia deixado a carta, mas nada estava ali. Revirou a sala por horas, já em pânico. Tinha certeza de que colocara a carta sobre a mesinha. Onde estaria aquela droga. Num lampejo, olhou em baixo do sofá e a encontrou. Apanhou o calhamaço de papel, já todo amassado e babado da noite anterior e começou a ler: “Aquilo era um saco”. Tinha dificuldades em manter-se concentrado no conteúdo e as letras pareciam embaralhar-se diante de seus olhos. Quando chegou ao fim da missiva, seus olhos estavam vermelhos e inchados. Percebeu que cometera um erro enorme e estúpido. Correu para a porta da frente – “de repente, ainda dá tempo!” – Uma voz esperançosa gritava em sua mente.

    Contudo, ao abrir a porta o que viu o deixou desolado. Os caminhões e todos os veículos, soldados e homem de jaleco branco haviam sumido. Correu pela rua e percebeu que todas as casas estavam vazias. Deu a volta no quarteirão; e era tudo a mesma coisa: Vazio e desolação. Já eram quase 18:00h e nada havia o que pudesse fazer.

    “Maldita preguiça! Maldita preguiça!” – Ficou repetindo de forma automática e como se estivesse dando uma bronca em uma criança levada. Correu por horas tentando achar alguém que o ajudasse. Mas estava completamente só. Apanhou um carro que fora abandonado com as chaves na ignição e percorreu a cidade, indo de quartel em quartel, procurando alguma unidade militar que estivesse na ativa e que pudesse ajudá-lo. Mas nada. Todos haviam desaparecido. Acelerou pelas ruas e avenidas vazias em direção as montanhas, talvez lá encontrasse alguém. No sopé da serra, a gasolina acabou e voltou a caminhar. De repente, o dia começou a clarear. “Já viajara tanto assim?” – Se perguntou. – Olhou para o relógio e eram apenas duas horas da manhã. Que luz poderosa era aquela?

    Percebendo o que acontecia, começou a chorar desesperadamente e caiu de joelhos no asfalto, que já ficava quente como se o sol estivesse a pino. A carta enorme, que ele trouxera consigo e mantinha-se presa em suas mãos, como se colada, escorregou suavemente e espalhou suas folhas pelo chão.

    O calor era tão forte que ele suava em gotas. No horizonte, uma enorme bola de fogo iluminava a escuridão da noite com o brilho de milhares de sóis. O impacto foi tão poderoso que, mesmo a quilômetros de distância, sentiu seu corpo ser arremessado para o ar e cair violentamente contra o solo. Antes que a onda de choque e a chuva de chamas o envolvessem, ainda olhou para as folhas da carta espalhadas no chão e pode ler o rodapé da última folha: “Cidadãos, entre em contato com o número abaixo para obter a senha que lhe garantirá transporte para o abrigo subterrâneo”.




    PS: Conto inspirado num post do blog Pensamentos Equivocados.



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