Jonas era um ser humano perverso, desde a mais tenra infância, divertia-se fazendo o mal. Alguém que os psicanalistas chamariam de “sociopata”. De todos os que Jonas maltratava, sua mãe era a vítima predileta. Xingamentos, humilhações em público, cusparadas, beliscões; enfim, tudo o que seu repertório de maldades pudesse criar e pôr em prática.
Com o passar dos anos, suas maldades e malcriações transformaram-se em surras e espancamentos quase diários. Hematomas e ossos quebrados tornaram sua mãe praticamente uma sócia do hospital local. A polícia e os vizinhos, cansados de denunciarem e prenderem o monstro; estavam fartos e não compreendiam como aquela mulher franzina e tão bondosa, já na casa dos setenta anos, permitia e se submetia àquela tortura. E o que era mais incrível, procurava sempre dar carinho e atenção ao seu filho violento.
Na vizinhança, já havia rumores de que homens de disposição estavam prontos para “sumir” com Jonas. Mas sua mãe penalizava a todos com sua candura e implorava piedade. Dizia sempre: “Um dia ele encontrará Deus e terá seus pecados perdoados, tornando-se um bom filho”.A candura da mulher contrastava com a violência predatória do filho.
Um dia, ao embriagar-se no bar da esquina, Jonas discutiu com um desconhecido e o agrediu violentamente. O homem, humilhado, saiu do bar e voltando umas horas depois; atirou três vezes no peito de Jonas, matando-o instantaneamente.
Alguns que estavam no bar ainda ouviram-no balbuciar a palavra “mãe” antes de seu corpo cair ao chão. A notícia correu o bairro. Todos estavam aliviados de se livrarem daquele indivíduo endemoniado. Mas, ao mesmo tempo, sentiam muita pena da pobre mãe. Ela estava completamente arrasada. Devastada pela dor, rezava incessantemente para que Deus perdoasse seu filho amado.
Amigos da família compareceram ao IML para tratarem da liberação do corpo e do enterro. Ao serem notificados que o corpo estava liberado, foram chamados em uma sala reservada pelo legista; ele parecia preocupado: “Há um fato estranho. Preciso da autorização de vocês para amputar o antebraço do cadáver”. Surpreso; o senhor Almeida, amigo de longa data de Dona Zilá (a mãe), indagou ao médico o motivo daquele pedido estranho.
O legista informou que, normalmente, ocorre um fenômeno chamado “rigor mortis”. E que tal fenômeno causa o enrijecimento dos músculos e, conseqüentemente, do cadáver. Mas que, após algum tempo, com o início da degeneração celular; essa rigidez acaba e o cadáver volta e ser flácido. Com o Jonas isso não aconteceu. Suas mãos estavam estendidas em frente ao corpo num gesto de súplica. Isto era muito intrigante. Pois já haviam quebrado os ossos do braço para poderem dobrá-lo e nada havia mudado. Era um acontecimento muito incomum; poderia dizer até inédito. Resolveram amputar os braços na altura do cotovelo e disfarçá-los no caixão.
O senhor Almeida deu a autorização e executaram os preparativos para o velório. Já na capela, estavam todos reunidos. A mãe e os amigos dela, já que de parte dele ninguém apareceu. Afinal, como um monstro daqueles teria amigos?
Ao abrirem o caixão para a missa de corpo presente; o espanto foi total. Novamente, os braços estavam dispostos à frente do corpo. O senhor Almeida empalideceu e chorou. As outras pessoas que cuidaram dos preparativos para o enterro, estarrecidas com o estranho acontecimento, cochichavam pelos cantos e rezavam. Apenas Dona Zilá compreendeu o que acontecia. Cambaleante e chorosa, aproximou-se do caixão apertando carinhosamente as mãos suplicantes e sem vida de seu filho entre as suas, rezou baixinho e em lágrimas por vários minutos. Os que estavam próximos dela, disseram tê-la ouvido dizer: “eu te perdôo meu filho amado”.
Logos após, todos viram as mãos voltarem à posição normal.