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    sábado, 29 de dezembro de 2007

    RETROSPECTICA ANCESTRAL - O CAPELÃO.


    A noite era fria. Um frio cortante, que penetrava a pele, como uma lâmina afiada. Feria tão fundo que chegava até os ossos. E ali, na lama fétida e pútrida, recheada de corpos apodrecidos e constantemente revolvida pelas bombas que caiam por toda à parte, ele colava seu rosto naquela lama feita de água, terra, sangue, urina e dos líquidos que brotavam dos cadáveres de soldados dilacerados. A cada explosão, enfiava-se mais e mais naquela lama, como se buscasse a segurança do útero materno.

    Ali, deitado no fedor e em meio a todo aquele caos, ele pensava se fora acertado oferecer-se como voluntário naquela guerra. Era um jovem sacerdote. E, com o estourar da guerra na Europa, achou que ninguém mais no mundo precisaria tanto de Deus, quanto os soldados. Mais agora, enterrado naquele lamaçal na França tão longe de sua pátria, pensava que havia feito uma opção errada. Sua fé, antes inabalável, vacilava.

    Naquela noite do dia 21 de fevereiro de 1916, que fora um dia frio, cinzento e chuvoso do inverno europeu, no momento em que as mil duzentas e vinte bocas de canhões da artilharia alemã cessaram de disparar, após terem varrido as trincheiras e os fortins franceses com milhares de projéteis; calculou-se que 40 explosões por minuto dizimaram o front de batalha. Pedaços de corpos jaziam em toda parte.

    Sozinho, buscava as almas que ainda habitavam os corpos destroçados aguardando os ritos finais, para que pudessem voltar ao paraíso e abandonassem aquele inferno. Num buraco de bomba próximo, pode ver claramente um soldado alemão moribundo. Parte de seu rosto fora arrancada por um estilhaço, e um dos olhos pendia, caído da órbita esmagada. Os ossos do crânio expostos através da enorme ferida, pareciam conferir aquela face destroçada um sorriso cavernoso e hediondo. Ainda estava vivo.

    Esquecendo seu drama, o capelão, esgueirou-se para o buraco cheio de tripas e daquela água fétida e começou a orar baixinho junto ao soldado alemão. Nesse momento, ele percebeu que o soldado o olhava com uma estranha expressão na parte do rosto que sobrara. Tentava falar. Mas, tudo o que conseguia era emitir um som medonho e indistinto. A dor devia ser enorme e lancinante. Num ímpeto, o capelão afagou o rosto destroçado em seu ombro, como se afaga uma criança chorosa.

    Nesse momento, sentiu um cheiro estranho, uma névoa tênue e amarelada, se insinuava rente ao chão. Abraçava tudo com o carinho da morte. Podia ver os ratos que devoravam os corpos apodrecidos, gritarem, correrem e caírem em profunda agonia. Era como se uma mão gigante os espremesse até a morte. Com um terror profundo, lembrou-se do treinamento e percebeu que sua hora havia chegado: Era gás mostarda.

    Não havia como se proteger, sua máscara contra gases fora dada a um moribundo que tinha problemas para respirar durante a salva dos canhões alemães. Estava indefeso. Correr era impossível. Resignou-se e, abraçando o garoto já morto, elevou uma prece a Deus, preparando sua alma para o fim inevitável.

    A nuvem mortal chegou. Com seus tentáculos insidiosos o abraçou e levou-o para o fundo do buraco de bomba. Seus pulmões queimavam e pareciam explodir. Os olhos doíam e lacrimejavam. Tossia e tentava respirar, sem sucesso. Sentia o ácido corroendo-lhe as entranhas e a súbita chegada da morte, que estava ali... olhando e se divertindo.

    Em meio a fumaça amarelada, que se adensava em torno dele, viu umas estranhas figuras: Altas, cabelos longos, vestindo uns trajes, cuja cor, ele não conseguia perceber. Porém, sabia não eram uniformes, mas emitiam uma estranha e calmante luz. Nesse momento, sentiu suas forças se exaurirem. Caiu mais para o fundo do buraco e sentiu a água gelada e pútrida invadir sua boca e nariz. Por entre a escuridão e os clarões amarelos das explosões, viu estranhas criaturas com olhos imensos e longos narizes que o apanharam e cobriram seu rosto com algo que ele não percebia o que era... desmaiou.

    Dias depois, acordou numa cama do hospital de campanha ao leste de Verdun. Estava vivo. Não entendia; como escapara do gás mortal? A enfermeira, percebendo que ele acordara, e vendo sua agitação e dúvida, sentou-se a seu lado e contou o que acontecera:

    Durante o último avanço da infantaria, os alemães atacaram com gás mostarda e fogo de artilharia. As unidades francesas estavam dispersas e divididas. Ele fora dado como morto, inclusive já havia sido contabilizado como baixa. Mas, no meio do ataque, alguns soldados de retaguarda, perceberam uma estranha luz próxima a um dos buracos de bomba. Achando que era um sinalizador de algum soldado pedindo ajuda, foram até lá, e o encontraram caído no fundo do buraco dentro d’água; quase que totalmente submerso. Eles lhe colocaram uma máscara contra gases e o trouxeram pra cá. Foi quase um milagre ter escapado.

    O capelão ouviu tudo calado. Nunca comentou o que havia visto naquela noite no campo de batalha, nem como havia sido salvo. Porém, tinha certeza, que as almas dos que ele ajudara, uniram-se para retribuir o carinho e a paz que ele lhes proporcionara naquelas horas de agonia horrível.

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