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    sábado, 15 de dezembro de 2007

    RETROSPECTIVA ANCESTRAL - JANELAS DA ALMA.


    Aquele caso me intrigava. Pessoas comuns, sem envolvimento criminal, sem contato umas com as outras, negros, brancos, asiáticos; enfim, nenhum tipo físico ou raça em especial. O único ponto em comum, era a forma como foram encontrados os corpos.

    Dispostos em uma posição leste-oeste; pés e mãos amarrados; pernas quebradas e olhos arrancados. E todas no mesmo parque. Um estudo do local indicava que haviam sido mortas em outro local e largadas ali. Ainda segundo a perícia, os olhos foram arrancados com as vítimas ainda vivas; e, como não haviam sido encontrados vestígios de drogas, calculava-se que todas estavam conscientes durante o martírio. Ou seja, viram quando alguém enfiava um instrumento em seus olhos e os arrancava e não lutaram para defenderem-se. Nenhuma marca havia sido encontrada nos corpos. Nenhum ferimento de defesa, nada. Aquilo me intrigava. Em todos os meus anos como policial; nunca me deparei com nada igual.

    Naqueles dias, desde que o primeiro corpo foi encontrado, a delegacia estava em polvorosa. Uma força federal veio nos auxiliar; mas nada descobriram. Com o acúmulo de vítimas, o governador já tinha avisado que "cabeças rolariam", se nenhum resultado fosse apresentado logo.

    Tudo levava a crer que se tratava de algum culto satânico ou um psicopata. Investigávamos incessantemente, mas o assassino não deixava pistas. Prendemos todos os malucos locais e vasculhávamos a Internet e os jornais sensacionalistas em busca do menor comentário. A menor menção a um culto esdrúxulo, nós caíamos de pau em cima e prendíamos todos. Era uma loucura.

    Certa noite recebemos uma dica de uma viciada: "Haverá uma missa negra nos fundos da catedral, lá no centro."

    Montamos uma campana e esperamos a noite toda. Lá pelas altas horas da madrugada, um carro parou e vários malucos desceram e armaram um altar com velas pretas e o escambau. Eles nem respiraram, caímos em cima e prendemos todos. Havia até uma grande imagem de um demônio no carro. Mas, nada havia que indicasse algo mais sério. Eram apenas garotos cheios de fumo fazendo uma zona.

    Desapontados, chamamos um camburão e enviamos os garotos para a delegacia local, só para não perder a viagem.

    Em comboio, seguimos pelas ruas escuras e desertas do centro velho. Era um bom caminho até chegarmos à delegacia.

    Ao passar por uma das vielas estreitas, percebemos uma movimentação suspeita. Um homem alto corria pela rua, mas ao mesmo tempo, esgueirava-se nas sombras para não ser visto. Parecia carregar algo grande e pesado. Paramos a viatura e perseguimos a estranha figura até um pequeno beco. Lá, vindo da escuridão, escutamos um gemido alto. Um grunhido de agonia desesperada. Corremos em conjunto e, chegando ao fundo do beco, vimos à figura alta que perseguíamos segurando um homem nos braços.

    Ao nos avistar, largou o corpo já inerte como se fosse um trapo sujo. Ao iluminarmos a cena com nossas lanternas, notamos que o corpo estava dobrado em uma posição anti-natural; e seu rosto exibia uma expressão de dor profunda. Expressão esta mais imaginada do que vista. Pois seu rosto não tinha mais olhos.

    Havíamos encontrado nosso matador.

    Sem pensar e reagindo por puro instinto, cercamos a figura sombria e apontamos nossas armas; dando voz de prisão.

    Aparentando não se importar. O homem esticou-se e com os olhos ensangüentados de sua vítima nas mãos, calmamente olhou em nossa direção e, aparentando deliciar-se com uma fina iguaria, comeu os olhos com uma expressão de prazer imenso em sua face.

    A cena chocou a todos, alguns vomitavam. Mas, o desejo geral era o de varrer aquele animal da face da terra.

    Como se tivesse o poder de ler nossas mentes, o homem exprimiu seu desprezo com uma sonora gargalhada que vibrou em nossos corpos como o toque da morte. E... desapareceu diante de nossos olhos incrédulos e arregalados.

    Ainda em pânico e desnorteados, voltamos para a delegacia em silêncio. Ninguém ousava conversar sobre o acontecido. Nenhum comentário, nada.

    Era como se houvesse um pacto silencioso entre nós. Naquela noite, testemunháramos algo sobrenatural, algo inexplicável. O que teria sido aquilo? Quem era aquela figura? Qual o seu propósito?

    Perguntas que nunca teriam respostas. As mortes pararam. Nenhuma outra ocorrência daquele tipo tornou a acontecer. Seria a criatura humana? Seria um demônio? De qualquer forma, acho que queria apenas se mostrar, dizer aos homens que ela estava por aí... queria mandar um recado.

    E o recado era de que poderia pegar qualquer um, a qualquer hora e nada poderíamos fazer. O certo mesmo, é que depois do que vimos, nunca mais seríamos os mesmos. Pois, tudo estava bem claro para nós. Nossas almas estavam em perigo.

    Afinal, não são os olhos as janelas da alma?

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