quinta-feira, 20 de dezembro de 2007
RETROSPECTIVA ANCESTRAL - O CASACO.
![]() Estava frio. A garoa caia fina e gelada; parecia penetrar a pele como milhares de pequenas lâminas afiadas. A noite escura mergulhava a cidade inteira, num estranho silêncio moribundo. As ruas desertas, os becos escuros. Ele olhava em volta a procura de alguém para aquecê-lo. Tinha medo de ficar sozinho naquelas noites. Lembrava-se de sua infância e de como criminosos invadiam as casas, no bairro pobre onde morava e violentavam as mulheres após espancarem os moradores, só por diversão. Cedo, aprendera a defender-se deles, fingindo que dormia. Mesmo enquanto o violentavam ou batiam. Ele ficava quieto e refugiava-se no interior de sua mente, cada vez mais fundo, buscando a paz que sabia não existir. Caminhava encolhido e imerso em seus pensamentos. O frio causava nele uma estranha sensação de medo e desamparo. Tinha que encontrar alguém ainda aquela noite. Sob a luz difusa dos postes, deslizava quase invisível pelas ruelas e becos, sempre observando. Ao longe, pode vislumbrar a silhueta de uma mulher. Ela caminhava rapidamente, enrolada num casaco caro seus sapatos de salto alto ecoavam através da noite em seus passos rápidos e nervosos. Ele a mediu mentalmente e, apressando o passo, seguiu em seu encalço. Ela virou a esquina e começou a correr pela rua deserta; já o tinha visto. Mas ele, ao invés de correr atrás dela, parou e a observou mergulhando na noite. Conhecia aquelas ruas como a palma de suas mãos. Esmolara por ali toda sua infância; sabia de uma pequena viela que cortava o caminho e interceptava a rua principal mais à frente. Escondida pelos prédios novos, a viela estendia-se quase em linha reta pelo emaranhado de construções históricas. Um sorriso mórbido percorreu fugazmente seu rosto enquanto ele corria. Como um predador, antevia a surpresa de sua vítima com um brilho frio de prazer nos olhos. Mal chegara ao fim do caminho e podia ouvir os passos da mulher, retumbando no calçamento. Quando ela passou por ele, nem percebeu as mãos fortes que agarravam seu corpo e cobriam sua boca tão violentamente, que nem pode gritar. Um potente soco a fez calar-se, antes mesmo de qualquer tentativa de emitir um sussurro sequer. Ele a admirou na escuridão quase completa. Olhava embevecido seu rosto magnificamente maquiado. A boca, cuidadosamente delineada, que já começava a inchar pela violenta pancada. O colo branco e macio visto pela abertura do pesado casaco, o permitia vislumbrar os seios firmes e redondos. Afastou seu vestido, expondo os mamilos róseos e a pele alva e fina daquela obra de beleza natural. Ela era perfeita. Ele a arrastou cuidadosamente para seu carro e levou-a para casa. Queria começar o trabalho ainda aquela noite. Nada de ficar sozinho e com frio. Ela o aqueceria e o protegeria por muitas noites. Finalmente, sentia-se protegido e amparado. Na manhã seguinte, a polícia atônita, procurava pela jovem na cidade toda. Filha de um importante político, a imprensa e as autoridades realizavam verdadeira caçada humana, inclusive oferecendo recompensas pela sua localização. Tudo em vão. Os meses passaram-se e a jovem nunca mais foi vista. O verão chegou e o calor, sufocante e recorde, causava mortes por toda a cidade. Acostumados ao frio, os cidadãos sofriam com as altas temperaturas e a falta de chuva. Naquele bairro pobre, era muito pior. As casas mal construídas e aglomeradas não facilitavam a circulação de ar. O cheiro era horrível. Os corpos suados, o esgoto correndo a céu aberto, mosquitos, lixo pelas ruas. Um verdadeiro inferno. Mas naquela pequena casinha azul, as janelas permaneciam sempre fechadas. Dia ou noite. Os vizinhos começaram a sentir um cheiro extraordinariamente ruim vindo daquela pequena casa azul. O morador antigo do local, um rapaz gentil que morava ali desde criança, não aparecia muito. Mas era estranho. Desde que o verão começara ele desaparecera e se trancara em casa. Agora, aquele cheiro horroroso. Pensando no pior, chamaram a polícia. Ao chegarem, nada prepara os policiais que se depararam com ele ainda deitado no sofá. Um homem jovem, envolto num vistoso casaco de pele que ia até os pés, estava morto; já há alguns dias. O legista atestou morte pelo calor. Mas o mais estranho era o casaco. Ao mexerem no corpo para examiná-lo, notaram que a parte interna dele era grosseiramente remendada. Um exame mais detalhado causou espanto e comoção em todos: Era pele humana. E os pelos eram, na verdade, cabelos. Numa revista geral pela casa, encontram conservados em sal, vários órgãos sexuais femininos e um cinto feito de mamilos, cuidadosamente aplicados, em couro e ornados com cristais. Num armário no quarto, várias cabeças decepadas e com o cabelo raspado, amontoavam-se em vidros. Tudo cuidadosamente conservado em formol. Numa exposição macabra. No quintal imundo ossadas de, pelo menos, dez mulheres; foram desenterradas. Fotos descreviam passo a passo como o homem matara, esfolara e dissecara suas vítimas; uma a uma. E depois fizera o estranho casaco com seus despojos. Ele vestia-se orgulhosamente e desfilava pela rua ante a visão e abraços de seus vizinhos maravilhados. No mais rigoroso inverno, finalmente, parecia aquecido e feliz. |









