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    segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

    LUZ E SOMBRAS.


    Tinha sido um mês terrível. A mãe morrera, após uma longa e desafiadora doença. O pai, desesperado, entregava-se ao alcoolismo e ela perdera o emprego. A depressão e a apatia que esmagavam seu peito, finalmente causaram o desgaste inevitável na empresa.

    Mas, finalmente, sentia-se livre. Naquela manhã tinha decidido por um fim naquilo tudo. Mas encontrara um homem diferente. Charmoso, comunicativo, inteligente e profundamente espiritualizado; ele imediatamente a cativara com seu discurso afetuoso e coerente. Impecavelmente vestido, era um perfeito cavaleiro. Nunca, nada igual, acontecera com ela: Estava apaixonada a primeira vista.

    Sentia que podia voar. O corpo estava leve e as preocupações desapareceram como num passe de mágica. Olhando-se no espelho, via aquele brilho que a fizera tão sensual retornar aos olhos com força total. Apesar de tudo; podia dizer: Estava feliz.

    Caminhou pela cidade, entrou nas lojas, visitou velhos amigos. Estranhamente, em todos os lugares a que ia, tinha a nítida impressão de que muitas pessoas que encontrava, a acompanhavam. Era algo estranho, mas ao mesmo tempo, sentia-se confortada pela presença constante daqueles estranhos “conhecidos”.

    Do alto do velho prédio do museu (ela sempre adorara a vista de lá, mas raramente tinha tempo para ir) podia ver quase todo o centro velho da cidade. Seus palácios históricos e suas casas, que no passado abrigaram a nobreza. Ao fundo do maravilhoso cenário, o sol descortinava-se como uma enorme bola de fogo alaranjada; em seu passeio rumo ao ocaso. A noite logo cairia e ela deveria retornar para casa. Na manhã seguinte, tentaria encontrar aquele estranho homem sedutor. Mais uma vez, olharia naqueles olhos encantadores e profundos e se declararia sem medo. Algo dizia que ele não a recusaria.

    O sol agora; mergulhava nas águas da baia e a lua, tímida e pálida, tentava impor seu brilho tênue aos enamorados. Sentia seu espírito vibrar com a alegria da paixão. Ainda pensava no estranho charmoso, enquanto caminhava para casa.

    A noite caiu e parecia cobrir o mundo inteiro com seu manto negro. Tudo mudara. Ela olhava em volta incrédula. As ruas, antes tão bucólicas e tranqüilas, agora pareciam sombrias e assustadoras. As luzes nas calçadas bruxuleavam e lutavam para rasgar a escuridão, mas sem sucesso. Dos becos e dos cantos escuros, ela sentia que olhos a observavam. Sentia um crescente medo e não conseguia compreender o que mudara naquele dia tão maravilhoso e libertador.

    Agora mais corria do que caminhava, uma chuva fina e gelada começou a cair, e ela sentia arrepios percorrendo sua espinha. Não sabia mais se eram de medo ou de frio. Observava as sombras que as fracas luzes criavam a sua volta. Elas pareciam vivas. E estendiam tentáculos sinistros tentando alcançá-la. Ofegante, corria ainda mais rápido e procura pensar apenas na alegria que sentira aquela manhã e no encontro com o misterioso amigo. Ofegante, chegou à entrada do prédio em que vivia. Várias viaturas policiais estavam paradas em frente à construção e uma verdadeira multidão, impedia a passagem de quem quer que fosse.

    Agora estava aliviada. Seja lá o que for que a assustara tanto, não teria coragem de aproximar-se com tantas pessoas e tantos policiais por ali. Estava segura. No meio daquela agitação toda; ela destacou uma figura que parecia sobressair-se entre todos: Era ele.

    Alto, forte e com olhos profundamente escuros. A voz máscula e marcante, num tom grave e autoritário; mas ao mesmo tempo amoroso. Ele também a viu; e, aproximando-se dela, tocou-lhe o braço e disse: “Procurei por você o dia todo. Quando conversamos pela manhã, pedi que me esperasse em casa”. Ela sorria, com lágrimas nos olhos e sentindo-se uma perfeita idiota, nada falou; apenas beijou-o com ternura e declarou-se para ele.

    Ele pareceu surpreso. Sua expressão mudara, quase que instantaneamente, agora, o ar sedutor e carinhoso, dava lugar a uma expressão de condescendência paterna. Aquilo a irritou profundamente. Como se ele lê-se seus pensamentos, o homem a abraçou sussurrando em seus ouvidos: “Não se ofenda. É que você não entendeu. Mas eu vou te explicar”.

    Num gesto dele, a rua ficou imediatamente deserta e silenciosa. Toda aquela multidão de pessoas e policiais desaparecera no ar. Ela estava confusa. Mas antes que perguntasse qualquer coisa, o homem a conduziu até a portaria do prédio e a indicou um canto logo atrás da imensa árvore que dominava o jardim da construção. O que viu trouxe um entendimento completo sobre aquele homem e o estranho dia que tivera.

    Lá, caído junto ao muro do jardim, jazia o corpo de uma mulher. Suicidara-se pulando do prédio. Parecia jovem e bonita. Ainda segurava, numa das mãos, um pequeno terço. Imediatamente; reconheceu o corpo: Era ela mesma.

    O homem então, a abraçou mais uma vez e a conduziu ao seu destino final.



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