
Era uma mulher azeda e de maus bofes. Reclamava de tudo: Se fazia calor era ruim. Estava frio? Muito pior. Choveu? O que Deus tinha contra ela? O marido se esforçava: Trabalhava em dois empregos, bancava a inatividade ociosa da mulher, era fiel e dava-lhe presentes sempre que podia. Quando ela dizia que estava com tédio; ele dividia-se entre carinhos e afagos para tentar agradá-la. Ela, como sempre, torcia o nariz e vomitava impropérios sobre o pobre homem como uma avalanche de fogo infernal.
A vizinhança comentava e compadecia-se de seu sofrimento. Mas como o ditado dizia: “Em briga de marido e mulher; ninguém mete a colher”. Todos fingiam ignorar o que acontecia naquela casinha pequena e apagada do fim da rua.
Num belo dia de verão os vizinhos escutaram, mais uma vez, a mulher xingando e reclamando da vida em altos brados. O pobre homem sequer era ouvido. De repente; poucos momentos após o início da briga, os gritos cessaram. Uma paz incomum caiu sobre a pacata rua e envolveu a todos com um delicioso toque.
No dia seguinte, e nos próximos, a mulher não foi mais vista. O casal não tinha filhos e todos haviam se acostumado a vê-la, bem cedo, indo as compras ou limpando a frente da casa. Já fazia quase um mês e a mulher simplesmente sumira. Os comentários eram num só tom: “Ele se encheu e a matou” – Diziam uns – “Não sei como ele fez, mas fez bem feito” – Outros cochichavam maldosamente.
A verdade é que a notícia do desaparecimento da mulher e a suspeita dos vizinhos acabaram se espalhando e chegaram até um dos parentes da mulher. Desde muito tempo atrás, todos haviam se afastado dela. Qualquer pessoa normal se incomodaria com suas maldições e os impropérios, lançados a menor contrariedade. Para ela, o mundo era seu algoz e ela; a grande vítima. Apesar disso, o irmão chamou a polícia e contou suas suspeitas.
Os policiais compareceram a pequena casa e, a vizinhança, não perdeu tempo. Empoleirando-se em muros, sacadas e até em árvores; os curiosos aglomeravam-se para tentar saber o que acontecera com a megera. O burburinho era passado de boca em boca com uma velocidade impressionante. Alguns juravam que o sujeito havia sido algemado e arrastado pela rua. Outros, diziam que haviam achado restos humanos atrás da casa e que o caso era de canibalismo. Enfim: Cada um tinha uma “história verdadeira”.
As horas passaram e a polícia saiu da casa, sem levar ninguém ou qualquer objeto. O homem, delicado e solícito, acompanhou os policiais até a porta e, com um aperto de mão amistoso, despediu-se deles. Dias depois, a polícia daria as investigações por encerradas. Uma notícia bombástica sacudiu a vizinhança e toda a imprensa local: A mulher, ao saber que o marido era suspeito de sua morte, ligara de um lugar não divulgado e usando um celular; falara com o tal irmão. Na verdade, estava cansada daquela vida medíocre e chata e fugira em busca de uma vida mais gratificante. Instada pelo parente, ela ligara mais uma vez para a polícia e confirmara a versão anterior. O caso, então fora encerrado. Todos os jornais divulgaram e fizeram matérias sobre as conseqüências das fofocas entre vizinhos.
Naquela casinha, ouviam-se agora apenas música e alguns risos altos. Aos poucos o homem reformou a casa e parecia levar a vida. Sem ter deixado abater-se muito, por tudo o que acontecera.
A noite caiu. E, com o passar das horas, deu lugar a madrugada. No interior da casa, o homem olhava atentamente pela janela do seu quarto. Àquela hora, a rua estava mergulhada num silêncio profundo e sonolento. Ouviam-se apenas os latidos distantes de um cachorro impaciente. Ele calçou os chinelos, desceu até o porão e, destacando um painel de ferramentas que cobria quase toda a parede; expôs uma porta. Lá dentro, presa por uma grossa corrente e amordaçada, a megera aguardava sua refeição.
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