
A velha casa estava caindo aos pedaços.
Finalmente, amanhã, chegariam às máquinas e os homens para a demolição. Mais um prédio de apartamentos tomaria o lugar de uma construção histórica do bairro. A casa tinha pertencido a uma Marquesa no Antigo Império. Mas hoje, quem dava importância a isso? O que interessa mesmo é que o terreno era enorme e valia uma fortuna. Assim como cada novo apartamento que seria construído ali.
De todos os moradores da pequena cidade, Ângela era a mais triste com a demolição do imóvel. Quando criança lembrava-se claramente das tardes passadas com a já bem velhinha Marquesa D’If. Uma mulher forte, mas de jeito manso e delicado, capaz de acolher e aturar dezenas de crianças da vizinhança que gostavam de ouvi-la contar as histórias da Corte Imperial. Os bailes, os saraus, a conversa com pessoas interessantes e com gente que eles só sabiam que existiam, pelos livros.
Quando ela morreu, mais ou menos uns dez anos atrás, Ângela nunca imaginaria que a família venderia a casa. Se ela que era uma estranha, tinha tantas lembranças maravilhosas; como era possível que alguém que conviveu com ela não tivesse apego ou recordações que justificassem a manutenção da casa. Não eram problemas financeiros, pois a família da nobre era dona de quase toda a cidade e ostentavam riqueza além do humanamente aceitável. Só podia ser raiva.
Ângela, então, decidiu que iria aproveitar-se do abandono e resgatar algumas “lembranças” da casa. Não queria que toda a memória dos dias felizes que passara ali, se perdesse e fosse tragada por um condomínio de luxo, cheio de ricaços esnobes. Apanhou uma lanterna e pulou o muro da propriedade.
O mato e as ervas daninhas tomavam conta do jardim, outrora magnífico e cheio de rosas. Trepadeiras, subiam pelas paredes mofadas e rachadas e agarravam-se ferozmente as grades das janelas e ao madeirame das portas e da varanda. Passou pela porta que dava acesso a primeira, das muitas salas, e que já não existia há muito. O piso de madeira nobre, que refletia quem por ele caminhasse, como se fosse o mais polido espelho; estava opaco, solto e completamente rachado. Fazia um barulho horrível, parecia que gemia e resfolegava a cada passo que ela dava. Era como de estivesse em agonia, antevendo o fim próximo.
Tudo estava revirado e quebrado, as paredes nuas e com marcas por onde a água da chuva penetrara, fazia parecer que a casa chorava com a tristeza sem fim do abandono. A noite já ia alta e ela começou a perguntar-se o que fazia ali. Um medo e uma sensação estranha começaram a tomar conta dela e sentia seu coração disparar. Chegou ao pé da escada, larga e enorme, que serpenteava até o andar de cima; com seus degraus cobertos com o mais fino mármore branco e uma passadeira vermelha. Não havia mais sinal do mármore. E a linda passadeira, agora era um monte de trapos sujos e que exalavam um odor acre e enjoativo de mofo.
Tocou delicadamente no outrora forte e lindíssimo corrimão que ela escalara tantas vezes e que arrancara gargalhadas felizes da velha marquesa; para logo depois se transformarem em beijinhos e afagos, quando ela se machucava. A casa toda recendia a alegria, carinho e um grande amor. Definitivamente, não merecia o fim que a aguardava com o raiar do sol.
Ângela foi retirada de seus devaneios por um estalar alto de algo se quebrando. Antes que pudesse perceber o que era, foi tragada pelo assoalho que se partira bem abaixo dos seus pés. Nem teve tempo de gritar. Caiu sobre um amontoado de sacos de pano e enormes quantidades de todo tipo de tecidos. Ainda olhando para o alto, percebeu o enorme buraco por onde caíra, pairando sobre ela como uma visão.
Por sorte, aqueles panos, que ela percebera, eram as cortinas de todos os cômodos da casa. Revirou a pilha de trapos e, dentro dos sacos, encontrou as roupas da marquesa. Estavam em muito bom estado. Alguns um pouco rasgados e mofados; mas nada que um pouco de trabalho e cuidado não resolvesse. Um dos vestidos chamou sua atenção em especial: Era um vestido lindíssimo, bordado delicadamente com filigranas de ouro e incrustado com cristais. Estava perfeito! Sem uma única mancha ou mácula sequer. Parecia ter acabado de ser confeccionado. Era, certamente, um vestido de baile.
Sem pensar duas vezes, ele apressou-se em vesti-lo. Caía-lhe com perfeição assustadora. Olhando-se num pedaço de espelho quebrado que ela encontrara e com a fraca luz da lanterna, mesmo assim, ela percebeu a beleza e a opulência daquela peça. E imaginou como a marquesa deve ter sido admirada nas festas e bailes em que usara o vestido.
Um som de vozes e passos, vindos do piso superior chamou-lhe a atenção. “Devem ser os vigias do terreno” – Pensou. Correu pela escada e subiu apressadamente, ainda vestida com a delicada peça. Girou a maçaneta da porta do porão e quando a abriu, tudo havia mudado...
A casa estava apinhada de gente. A música alta invadia a noite, carregada pelas vozes e gargalhadas das pessoas que dançavam no salão principal da casa. As paredes ora mofadas e manchadas, recuperaram seu viço e a beleza de que ele se lembrava. O que teria acontecido? Todos olhavam para ela com espanto e alguns perguntaram o que fazia no porão? Sem responder, desvencilhou-se das pessoas que a cercavam e quase correu pela casa até chegar ao salão. Todos estavam lá. Não os que ela conhecera; mas os nobres. A fina flor da sociedade do Império. Como era possível?
Um homem a pegou pela mão e a conduziu gentilmente até os jardins da casa. Estavam deslumbrantes; um verdadeiro festival de variedades de flores e plantas das mais diversas partes. O ar estava impregnado com o perfume dos jasmins que, nessa época, estavam em plena florada. Olhou detalhadamente para o homem que a carregava pelo jardim e percebeu que o conhecia. Tentou lembrar-se e, estarrecida, percebeu que era o marido da marquesa. A quem vira apenas por retratos; já que era falecido muitos anos antes dela mesmo nascer.
Era um homem bonito e forte. Muito mais que os retratos diziam. Mas, por que a carregava com tal intimidade? Onde estaria a marquesa? Chegaram ao centro do jardim e sentaram-se sob um abrigo ornado com lindos anjos entalhados e que ela jamais vira, em suas corridas pela propriedade na infância. Cheio de amor nos olhos, o homem fitou-a profundamente e disse-lhe: Meu amor, amanhã partirei para o norte e quero que passemos a noite apenas nós dois. Sem nenhuma intromissão desses chatos bajuladores.
Só então ela percebeu: Estava vendo tudo com os olhos da própria Marquesa D’If. Apenas não compreendia o que significava tudo aquilo; e o por que daquela estranha visão. Beijaram-se sob as estrelas e sob os olhares impassíveis dos anjos. Amaram-se ali mesmo e o Marquês era um homem tão amoroso e gentil que ela não compreendia como a mulher falava tão pouco dele.
Já na madrugada, dois homens apareceram procurando o marquês. A casa era afastada e o local reservado, ficava a salvo dos olhares curiosos de qualquer pessoa que passasse pelos jardins. Era o lugar secreto deles. Ao perceberem a aproximação dos homens. Recompuseram-se e o nobre deixou o refúgio, dirigindo-se aos dois: “O que querem?”
Por entre a vegetação, ela via claramente que eram o irmão e o tio do marquês. Pensou em sair e saudá-los, mas antes que pudesse tomar qualquer iniciativa, os homens começaram a discutir e a brigar. Escondida, viu quando o próprio irmão esfaqueou pelas costas o marquês desarmado. Enquanto seu corpo caia inconsciente, ambos fugiam calmamente do local. Sufocada pela dor, corre e abraça o amado que já está morto. Os homens viram-se e aproximam-se dela. A faca ensangüentada ainda jaz na mão do assassino frio. Ambos a olham, por um momento, sem nada dizerem. Seu sangue está gelado. Ela treme e pensa que vai morrer.
O assassino nada fala. Apenas leva uma das mãos aos lábios, num sinal de silêncio. O tio, com um olhar sádico e um malicioso sorriso nos lábios, diz por entre os dentes alvos: “Se falar, sua filha terá o mesmo destino”. A dor, a violência e a perfídia são enormes, ela levanta-se e pretende enfrentá-los. Mas, num momento de lucidez, percebe que será inútil. O tio é irmão do Imperador e o cunhado um alto comissário do Império. Ninguém acreditará. Ambos são poderosos e podem, muito bem, levar a cabo a promessa de vingança. Ela, então, cala-se resignada.
Uma batida forte faz com que Ângela vire-se. Poeira, lascas de madeira e pedaços de reboco, caem sobre ela como uma nuvem de destroços. Gritos ecoam pelo ar e uma nesga de sol penetra a escuridão do porão e incide sobre seus olhos. Os vultos aglomeram-se ao redor do enorme buraco na parede externa da casa e uma chuva de xingamentos e impropérios cai sobre ela com reflexos maiores do que os escombros: Voltara ao porão.
A demolição começara e nem haviam percebido sua presença na casa. Se não fosse o descuido de um dos trabalhadores que causara um enorme rombo na parede que levava ao porão, ela teria sido soterrada nos escombros da casa.
Enquanto a ajudavam a subir e a limpar-se, Ângela relembrava a incrível experiência que tivera. Descobrira o motivo que levara a marquesa a buscar o recolhimento e a retirar-se de todo o convívio social ainda muito jovem. A morte trágica do marido amado tinha sido um golpe por demais violento. E, ainda mais, tendo que guardar para si as reais identidades de seus assassinos. Tudo para proteger sua filha e a única parte que lhe sobrara de seu amado. A aversão que sentia pela Família Imperial até o último de seus dias, estava agora explicada. E também o motivo pelo qual queriam apagar todas as lembranças daquela linda casa.
No fim, tudo o que sobrara fora apenas aquele vestido.
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