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    sábado, 5 de janeiro de 2008

    PERDIDO.


    A cabeça doía, a escuridão o envolvia como um manto espesso. Meio tonto ergueu-se com dificuldade e olhou a sua volta: Através da negrura profunda que o cercava podia apenas vislumbrar sombras mais escuras ainda a sua volta. Tateando, começou a caminhar. A cada passo, seus pés afundavam no terreno desconhecido por onde pisava. Pareciam molhados e pegajosos e percebeu que só podia estar caminhando sobre um lamaçal. Continuou em sua caminhada cega e sem rumo, por uns poucos passos. Mas, devido ao enorme esforço lutando contra a lama pegajosa e incrivelmente fétida; aquilo parecia uma tortura sem fim. Estava ofegante. O peito doía e queimava parecendo encher-se com fogo. Tentava respirar fundo, mas o ar carregado com odores tão fortes e nauseantes, o fazia vomitar constantemente.

    Deu mais alguns passos e tropeçou em alguma coisa largada no chão. Caiu violentamente e seu rosto afundou por completo na lama espessa e mal cheirosa. A podridão penetrava em sua boca, nariz e ouvidos. Sentia-se invadido por aquela imundície pútrida e um gosto forte, terrível e azedo, fazia-lhe a língua sangrar. Começou a erguer-se novamente; mas, por algum motivo ficou parado com o tronco esticado e os braços perpendiculares ao chão. Sentia a lama escorrer pelo rosto e junto iam suas lágrimas. As perguntas passavam por sua mente como se fossem milhares de pregos afiados: “Onde estou? Que lugar é esse? Como está tão escuro assim? Por que esse lugar cheira tão mal?”

    Sentia o desespero tomar conta do seu espírito e imaginou-se correndo e gritando. Queria que alguém o ouvisse e viesse em seu socorro. Mas, naquela lama densa e funda, só pensar no esforço necessário, lhe dava vontade de jogar-se ao chão e pedir para afundar e desaparecer para sempre. Queria apenas morrer e terminar logo com isso. Mas sabia que, estivesse onde fosse, sua única chance de ser resgatado era continuar caminhando até encontrar algum sinal de civilização. Levantou-se e limpando o rosto prosseguiu em sua penosa caminhada. Como não conseguia enxergar nada, erguia os braços tentando encontrar um referencial que pudesse seguir. Após uma centena de passos, sentiu o chão abrir-se aos seus pés e rolou por uma ribanceira. Durante a queda, sentia seu corpo sendo ferido por todo tipo de coisas. Atingiu uma enorme pedra que quase lhe cortou ao meio. As dores lancinantes e o gosto de sangue, agora muito mais intenso, arrancaram o pouco de disposição que ainda tinha para caminhar. Permaneceu ali. Parado. Estava exausto, e sem forças. Tomara uma decisão: Ficaria ali. Desistiria de tentar e não queria mais se machucar. Largou-se na base da pedra e fechou os olhos. Sequer notou que o chão, não era mais lamacento. Uma fina camada de grama forrava o lugar onde caíra. Finalmente, sua resistência havia chegado ao fim e nada importava. As mãos feridas ardiam e latejavam; parecendo querer explodir. Seu corpo era apenas dor, agonia e desespero.

    Ao virar-se de lado, percebeu quase no horizonte uma tênue luminosidade. Exultante, reuniu suas últimas forças e um pensamento rasgou a escuridão e trazendo-lhe uma nova gana. Revelando um ímpeto, que ele próprio desconhecia. Com dificuldade e cambaleante, percorreu o que parecia ser um caminho estreito e tortuoso que era margeado pelos enormes lamaçais. O odor pútrido ainda era presente, mas agora, isso não importava mais. Sentia-se leve e renascido. Queria correr, mas seus pés pesavam toneladas e tinha medo de desmaiar antes que chegasse a cabana, ou ao que fosse, e perder a chance de ser resgatado.

    Os passos trôpegos, mas ligeiros, o levaram bem próximo à luz. Agora já podia ver muito bem o lugar: Era um enorme portão que parecia ser guardado por soldados armados. Eles tinham espadas e lanças enormes. A luz bruxuleante que iluminava a cena revelava armaduras impecavelmente reluzentes. Algo estranho para um lugar tão cheio de lama como aquele. Sentia-se feliz. Finalmente chegara a salvação. Gritou o mais alto que pode e acenou para as figuras reluzentes que pareciam notá-lo; porém, não se mexeram. Sequer fizeram menção de ajudá-lo. Imediatamente, pensou tratar-se de algum país hostil. Mas, não conseguia se lembrar como fora parar ali. Nem por que o tinham abandonado naquele lugar horrível e desolado. Sentia seu coração disparar e parecer saltar pela boca. Suas têmporas martelavam com o esforço enorme de caminhar rapidamente com o corpo tão machucado. Mas, mesmo assim, sorria. Estava salvo; e isso era o que importava.

    Agora, estava tão perto dos soldados que podia ver seus olhos. Alguns eram mulheres. Magníficas! – Pensou – Quando uma delas virou-se e, erguendo um dos braços, deu uma ordem ríspida a um dos outros guardas e todos recuaram para trás do enorme portão, fechando-o. Aquilo caiu sobre ele com o peso de toneladas. Como? Por que se recusavam a lhe ajudar? Chorando e gritando, reuniu suas últimas forças e correu desesperadamente para os portões. Agarrou-se as barras e clamou enlouquecidamente por ajuda esticando os braços em um gesto de súplica. Os guardas, do outro lado, permaneciam impassíveis. A mulher aproximou-se do portão e com uma voz ríspida e cheia de autoridade ordenou: “Saia criatura, retorne ao pântano. Volte ou a devolveremos a força ao seu devido lugar”.

    Chorando copiosamente, não entendia aquele comportamento cruel e aquela falta de humanidade. Será que não viam que ele estava perdido e precisando de ajuda? Sentiu seu espírito morrer e esvaziar-se de qualquer esperança. Soluçando e balbuciando palavras desconexas, escorregou vagarosamente pelas grossas barras do portão até o chão. Em seu sofrimento, ouviu a mulher dirigir-se aos guardas que o encaravam com ar de reprovação: “É sempre a mesma coisa. Eles matam, roubam, destroem a vida de dezenas de pessoas e, quando vem para cá; esquecem de tudo e ficam clamando por ajuda. Esquecem que estão condenados e que devem pagar pelo que fizeram em vida”.

    Só aí ele percebeu que, o que pensava serem capas nas costas dos soldados e da mulher, eram asas. Eles não eram soldados: Eram anjos. E ele não estava perdido; estava morto. Um grito lancinante e de profundo sofrimento saiu de sua boca escancarada; enquanto seu corpo escorregava lentamente de volta ao lamaçal fétido e pútrido onde deveria vagar pela eternidade.





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