
Aline era uma menina meiga e calada. Do alto de seus doze anos, via o mundo pelos olhos encantados e impressionáveis de criança. Por isso mesmo, quando no fim de novembro aquele velhinho de cara redonda, barba branca e farta, barriga proeminente e uma risada gostosa mudou-se para a casa ao lado da sua; ela decretou: “É o Papai Noel!”
Num instante, a “notícia” correu o bairro e dezenas de crianças começaram a peregrinar até a residência de número 100 daquela rua tranqüila de subúrbio. “Seu” Arlindo, era esse o verdadeiro nome do velhinho, não se incomodava. Sempre que as crianças tocavam a campainha ou batiam na porta, ele as recebia com um sorriso enorme e, apoiando as mãos na barriga disparava: “Ho, Ho, Ho Hooo!!”
A criançada ficava encantada e risinhos deslumbrados inundavam a rua; acompanhados de pares e pares de olhos brilhantes e sonhadores. De todas as crianças, Aline era a mais interessada no senhor Arlindo. Sua mãe era muito doente e, nesse ano, ela tinha escrito uma carta para o Papai Noel dizendo que não queria brinquedos; queria apenas que sua mamãe melhorasse e voltasse a brincar com ela.
Os dias iam passando e o Natal aproximava-se com uma velocidade espantosamente ridícula aos olhos de Aline. Ela tinha certeza que seu pedido seria atendido. Pois Papai Noel mudara-se para a casa ao lado, apenas para confirmar a história da mãe doente. Afinal, ele podia achar que algum adulto querendo castigar a filha, havia escrito a carta em seu lugar pedindo para não ganhar brinquedos.
Finalmente, a Véspera de Natal chegou. Curiosamente, “Seu” Arlindo andava sumido e há muitos dias ela não o via. Certa de que ele estava muito “atarefado” fazendo os presentes para as crianças do mundo todo, Aline não se preocupou muito. Resolveu, então, pular o muro da casa vizinha e “dar uma olhada” no que estava acontecendo por lá.
Pé ante pé, ela escalou o muro e deixou-se escorregar para o quintal do vizinho. Abaixou-se e, quase rastejando, chegou até a janela da sala. Cuidadosamente, foi subindo até ficar na ponta dos pezinhos. Mesmo assim, quase não conseguia olhar o que acontecia lá dentro. Mas, com esforço, ela viu o “Bom Velhinho” arrumando um enorme saco vermelho. “São os presentes!” – Pensou exultante – Ficou tão nervosa que se desequilibrou e caiu da janela, fazendo um barulho enorme.
Os cachorros da vizinhança latiam assustados e a algazarra acordaria até o mais profundo dorminhoco. Antes que ela pudesse correr, seu Arlindo já estava em frente a ela com um enorme sorriso: “Ora, ora! Se não é minha amiguinha curiosa a Aline”. Com sua face iluminada por um sorriso inocente e de mais profunda bondade, o velho estendeu os braços e, carinhosamente, ajudou a menina a levantar-se e limpar a sujeira dos joelhos. Levando-a pela mão, entrou na sala de sua casa e mostrou-lhe seu segredo: Uma roupa completa de Papai Noel estava arrumada meticulosamente sobre o sofá da sala. Aline, com olhos arregalados e faiscantes correu para o móvel e roçando a roupa como se reverenciasse um objeto sagrado, deixou suas mãozinhas deslizarem pelo tecido delicado e fofo. Estava tão maravilhada com a descoberta e tão concentrada na esperança de ter seu desejo atendido; que nem percebeu quando, num golpe certeiro, o “Bom Velhinho” a abatia com um enorme cajado decorado.
Dias depois, após buscas infrutíferas em toda a vizinhança e bairros vizinhos, o noticiário local mostra uma reportagem sobre um saco vermelho abandonado no lixão da cidade vizinha. Em seu interior; partes de corpos de crianças mutilados. A polícia estava perplexa e sem pistas. Mesmo após muito tempo passado, todos se lembravam da imagem surpreendente de uma roupa de Papai Noel completa; abandonada ao lado do achado macabro.
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