terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
APRISIONADO.
![]() Acordou suando. Sentia-se mal e a escuridão a sua volta causava uma sensação de sufocamento maior ainda. Tinha que se esforçar para respirar. O ar, quente e fétido, doía ao invadir seu peito oprimido Tentou levantar-se. Mas, por um motivo estranho, estava imobilizado. Percebia claramente que estava deitado sobre algo úmido e pegajoso. Estava desesperado. O silêncio total era o principal fator de preocupação. Não ouvia nada. Nenhum ruído, nenhuma voz; absolutamente nada. Naquela escuridão e silêncio imensos, apenas o fedor era supremo. E que cheiro horrível. Tentou tapar a boca e o nariz, por onde o odor cada vez mais pungente, teimava em invadir-lhe os sentidos. Mas as mãos pareciam amarradas. O que teria acontecido? Onde estava? Fora seqüestrado? O que poderiam querer dele? As perguntas martelavam sua mente e faziam a cabeça doer. A cada tentativa de mover-se ou de levantar-se. Sentia seu corpo escorregar naquela pasta viscosa e nojenta na qual estava deitado. Chorava. Sentia as lágrimas escorrerem pelo rosto e os soluços brotarem da garganta, como se fosse uma criancinha indefesa. Tentou virar-se e forçar as amarras que pareciam prendê-lo pelas mãos e pés. Novamente, sentia-se escorregar naquela lama estranha e o medo de que estivesse em um terreno movediço e perigoso o assaltou como golpe no rosto. Tinha medo. A boca seca. Imersa num gosto amargo e metálico; que já sentira muitas vezes quando estava em ação. Lembrou-se dos homens que matou e das inúmeras famílias que deixou desamparadas. Mas era seu trabalho. Agora sabia qual a sensação de suas vítimas. O abandono, o medo e a frustração de saber que vai morrer e não poder fazer absolutamente nada para evitar. Quem o teria pegado? Onde estaria sendo mantido prisioneiro? Poderiam ser subornados para que o libertassem? Esperava que aparecessem logo. Tinha medo que aquele fedor e aquela lama nojenta acabassem sufocando-o, antes que tivesse uma oportunidade de falar com alguém. Por experiência própria, sabia que matadores eram pessoas com uma ética elástica. Com uma proposta adequada, qualquer um cedia. Ele mesmo já fizera isso mais de uma vez. Esperava que, quem tivesse conseguido apanhá-lo, fosse “bom de jogo”. O tempo passava. Mesmo sem conseguir determinar a quanto tempo estava ali, sentia que já se haviam passado muitos dias. O fedor, agora, era muito mais forte que antes. Sentia-se mergulhado mais profundamente na lama e toda vez que se mexia, o fedor aumentava. Ah! O fedor. Isso era o pio castigo. Sentia que morreria imerso naquele fedor asqueroso. E chorou novamente. Agora era um choro incontido e desesperado. Depois de muito tempo, desistira. Só queria morrer. Aquele cheiro horrível e aquela lama viscosa e nojenta eram piores que a escuridão e o silêncio. Pela primeira vez em muitos anos, começou a rezar. Lembrou-se que não acreditava em Deus. Mas, naquele momento de profundo abandono, era tudo que ele podia fazer. Chorava e soluçava. O peito saltava com as convulsões e espasmos do choro, agora descontrolado. Antes de morrer, queria o perdão. Queria que Deus o tirasse dali e o levasse embora. Foi quando a luz chegou. Ofuscante e ferindo seus olhos, já acostumados à escuridão avassaladora. O fedor foi-se como mágica. E um odor doce de rosas tomou conta do ar a sua volta. Uma voz, que ele não conseguia identificar o chamou e ele sentiu-se levantar. Só então, já livre das amarras, pode voltar-se e aproveitar a luz para olhar em volta. No lugar onde estava deitado, ossos e restos de madeira espalhados pela terra. Uma massa negra e viscosa recobria tudo. Percebeu pessoas caminhando no terreno onde estava. Choravam e caminhavam a lado de um caixão. Era um enterro. E entendeu. Estava morto e aqueles eram seus restos apodrecidos. A luz tornou-se mais forte e o envolveu, ofuscando as cenas horríveis. Uma voz, que ele não conseguia distinguir, mas vinha da luz lhe disse: “Meu filho, sua provação acabou e você se arrependeu. Venha para mim”. Enquanto sentia mãos caridosas o abraçarem, uma paz e felicidade imensas brotavam em seu peito. Compare preços de:
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