domingo, 17 de fevereiro de 2008
DESASTRE.
![]() O silêncio era pior do que qualquer outra coisa. Assim que recuperou a consciência, olhou em volta procurando por ajuda. Apenas podia ver os destroços fumegantes e as árvores queimadas a sua volta. Na escuridão da noite, a luz bruxuleante dos focos de incêndio, fazia as sombras dos restos humanos espalhados na vegetação e nas saliências do terreno dançarem; num balé macabro e cheio de horror. Em sua mente, ainda ouvia o ruído do motor explodindo, os estalidos metálicos do intercomunicador com a voz falsamente calma do piloto; avisando da emergência e que tentaria um pouso na selva. Os gritos de desespero, o choro e as preces que se espalhavam pela cabine de passageiros, como um incêndio num campo seco. Logo depois; os ruídos do avião batendo contra a copa das árvores mais altas e as preces e choros dando lugar a gritos desesperados. O metal se partindo, tão facilmente, como se uma enorme mão dividisse o avião em pedaços. O cheiro de sangue e carne queimada invadindo seus sentidos e, em poucos segundos, uma abençoada e silenciosa escuridão. Incrivelmente, a seção do avião onde estava, caíra intacta ao solo. Mas, o mais incrível, era que um enorme pedaço de metal cortara todos os passageiros ao seu lado; detendo-se a poucos centímetros dele. Soltou o cinto de segurança e levantou-se com dificuldade. A porção lateral da fuselagem tinha sido arrancada e a parte onde estava, girara de lado. Assim, podia ver claramente a enorme clareira que o avião deixara na mata. Ao ver aqueles restos queimados e dilacerados espalhados por toda parte; examinou seu próprio corpo rapidamente. Sabia que podia estar gravemente ferido, mas a adrenalina o impediria de sentir qualquer dor. Já tinha visto acontecer antes. Mas inacreditavelmente, salvo uns pequenos arranhões, nada acontecera com ele. Caminhou pela trilha deixada pela aeronave procurando por outros sobreviventes. E... nada. Tudo que podia ver eram restos da fuselagem, peças do avião, bagagens e pedaços de corpos. Muitos... muitos mesmo. Pensamentos assustadores lhe ocorreram: Fora o único sobrevivente. Como escaparia dali? Como sobreviveria? O resgate demoraria? A verdade, é que mesmo que uma missão de resgate saísse agora mesmo da cidade mais próxima, demoraria dias para os localizar. Sem contar que mesmo se a área fosse menor, a mata cerrada reduzia muito as esperanças de serem vistos do céu. Por suas outras viagens àquela região, sabia que havia uma cidade ao norte de onde estava. Era uma caminhada de vários dias. Mas ficar ali esperando, seria esperar a morte. Resolveu correr o risco e, pela manhã, começar a caminhar. Recolheria o que pudesse carregar e ser útil e partiria com o sol. Poderia ter sorte de encontrar madeireiros, uma tribo indígena integrada ou seringueiros, muito comuns na região. Qualquer coisa era melhor que ficar ali. Mesmo porque, logo os corpos começariam a apodrecer e trariam os predadores. O sol nasceu e sua luz trouxe a total dureza daquela paisagem arrasada. A escuridão com sua sabedoria; escondia a magnitude daquele horror. Agora, com o sol banhando tudo, podia ver com clareza a paisagem quarada de restos humanos. Seria impensável permanecer ali. Ao chegar ao limiar da clareira, ainda olhou para trás na esperança de encontrar alguém vivo. Olhou o terreno e as árvores, mas tudo que via era a mesma desolação de antes. Suspirou com desânimo e mergulhou na selva. O primeiro quilômetro foi difícil. A mata fechada e as plantas rasteiras tornavam impossível avançar com rapidez. Sem um facão, suas mãos estavam feridas e fustigadas pelas folhas cortantes e espinhos. Conforme caminhava, insetos de toda sorte entravam em sua boca, nariz e ouvidos, causando um incômodo torturante. Os olhos estavam inchados e lacrimejavam. As plantas urticantes que roçavam neles conforme penetrava na selva, faziam com que ardessem e ficassem vermelhos e doloridos. Não conseguia ver o céu. E a selva em volta, estava cheia de ruídos e movimentos assustadores. Quando a noite começou a cair, ficou impossível prosseguir. Sentiu-se cair exaurido no solo úmido da floresta. Em seu íntimo, sabia que durante todo o dia, seu progresso tinha sido muito pouco. Não imaginava que seria tão difícil. O corpo cortado e ferido de várias formas estava exausto; e o conduziu para um sono sem sonhos. Um barulho alto e próximo despertou-o num sobressalto. Algo grande caminhava ali por perto. Sentia cada fibra do corpo doer e latejar. Apesar de toda aquela umidade, não havia uma gota de água para beber. Sentia-se desorientado. O dia parecia estar bem adiantado. Mas, sem ver o céu, não tinha como calcular por quanto tempo dormira. Novamente, aquele barulho. Agora bem mais próximo. Pensou logo numa onça. E imediatamente, seu coração se encheu de pavor. Uma corrente de adrenalina encharcou sua corrente sangüínea e deu-lhe um novo ânimo para prosseguir. Sem pensar em mais nada, atirou-se ao caminho e, agora com urgência renovada, recomeçou seu avanço doloroso. Agora havia a preocupação de conseguir água. A boca seca e a língua inchada tornavam seu suplício verdejante ainda pior. Rezava para que chovesse; pois não ouvia nenhum barulho de água corrente desde que abandonara o local do acidente. As mãos, agora em carne viva, em breve não passariam de instrumentos inúteis e, sem poder usá-las, sabia que o resultado seria uma morte lenta em meio aquela selva fechada. O medo começou a abraçá-lo com seu toque gélido. Sentia o peito oprimido e as lágrimas rolavam pelo rosto. Mas não tinha tempo para isso. Sabia que se desistisse, a morte o tragaria sem dó. Continuava caminhando. De repente, bem atrás dele, lá estava o barulho novamente. Caminhou mais alguns metros e, mais uma vez, ouviu o ruído. Agora tinha certeza: Seja lá o que fossem o estava seguindo. Não tinha onde se esconder. Olhou ao seu redor e só conseguia enxergar alguns metros mata além de onde estava. Tinha que pensar rápido ou seria alcançado e atacado. Agora tinha certeza de que era uma onça. Só podia ser. Avançou mais um pouco e sob uma árvore imensa, encontrou uma toca grande. Era quase uma pequena caverna. Enfiou um pedaço de pau lá dentro, para ver se havia algum “morador” ocupando o buraco. Estava vazia. Ia se esconder ali. Mesmo que o animal o encontrasse, poderia proteger-se afastá-lo com o bastão e com algumas pedras que apanhara. Além disso, a entrada da toca era estreita, o que lhe dava a vantagem na defesa. O dia começava a morrer mais uma vez, a escuridão da noite loção mergulharia a selva em seu manto e seria suicídio tentar escapar do predador. Era a única alternativa sensata. Arrastou-se para o buraco e virou-se lá dentro com dificuldade. As mãos sangrando e doloridas, tornavam martirizantes quaisquer movimentos. Protegeu-se bem no fundo da grande toca e fechou a entrada com alguns galhos e folhas. Ao mesmo tempo, apontou o bastão pontudo que levava para a entrada do abrigo, e o usaria como lança se o animal teimasse em atacá-lo ali. Lá fora, a noite caiu; e a escuridão total mergulhou tudo em trevas. Atento, ele podia ouvir todos os barulhos da floresta. Seu coração disparava ao menor ruído. Em sua mente, um pensamento o incomodava mais que qualquer outro: E se ela apenas o esperasse sair do buraco para atacá-lo? Aquilo o preocupava, mas nada podia fazer. Só lhe restava esperar amanhecer e prosseguir. Estava distraído com esse pensamento, quando um barulho alto o trouxe de volta a realidade. Seja lá o que fosse, estava se aproximando. Cada vez mais alto, o barulho se intensificava e causava nele um pavor quase insuportável. Estava desesperado e acuado. Cada fibra de seu corpo queria saltar e atacar o animal. Assim, teria comida e beberia seu sangue. Mas, sua mente civilizada, gritava que aquilo era loucura. O dilema o atormentava quando ouviu outro barulho. Sim agora era diferente, bem próximo, alto e forte: Eram vozes humanas. Aquilo caiu sobre ele como um cobertor aconchegante. Os tremores, a ansiedade e as dores, e o medo sumiram como por encanto: estava salvo. Mas sabia que, para que isso se tornasse verdade; tinham que achá-lo. Começou a gritar enquanto rastejava para fora do buraco. Gritava com toda força que lhe restava. Gritava alto e batia com o bastão na vegetação para que o vissem. Naquela escuridão, seria sorte se o encontrassem. Poderiam passar ao seu lado e não o veriam. As vozes pararam e, mais uma vez, o silêncio cobria a selva. Gritou por muito tempo, mas não ouvia mais nada. Toda a alegria; toda a força; toda a disposição, agora o abandonaram. Caiu de joelhos no chão e chorava desesperado. Mergulhou o rosto nas mãos e deitou-se em posição fetal. Era isso, ia morrer ali. Nesse exato momento, homens o cercaram na mata: Eram índios. O olhavam curiosos. Ele sorria e abraçava cada um deles. Não entendia que diziam e nem eles compreendiam o que falava. Tentou explicar pelo que passara, mas eles apenas o olhavam com curiosidade e espanto. O mais velho deles fez um sinal como se quisesse que ele os seguisse. Embrenharam-se na selva e, agora, ele chorava de alegria. Tudo acabara. O sofrimento, aquele pesadelo insano, a sede, a fome, tudo acabara. Imaginava a incrível história que contaria assim que voltasse para a civilização. As entrevistas. Quem sabe, um livro? De qualquer forma, aquela seria uma façanha incrível. Chegaram à aldeia após algumas horas de caminhada. Logo vários índios o cercaram. Estavam rindo e o cutucavam com as mãos. Crianças corriam e gritavam a sua volta. Já era quase manhã. Agora ele podia ver o céu; percebia que o dia estava amanhecendo. Mesmo que fosse necessário ficar por ali ainda umas semanas, agora estaria protegido. Estava cansado e não via a hora de poder dormir em segurança; finalmente. Aquele era um pensamento reconfortante. Sentia-se feliz e acolhido. Só queria agora descansar. Sentiu uma dor forte na cabeça e o mundo girou a sua volta. Caído de costas, via o céu iluminando-se sobre ele com os brilhos dourados do sol. Um índio velho debruçou-se sobre ele e sorriu. Sem entender, ele sorriu de volta. Mas logo outra dor lancinante o envolveu. Ainda aturdido, pode ver antes de desmaiar de dor; que outro índio cravava uma enorme lâmina de pedra em seu ventre e rasgava sua carne: Eram canibais. Compare preços de: |









