quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
O NOVATO.
![]() A casa era linda! Uma construção sólida, em centro de terreno, cercada por um jardim imenso e perpetuamente florido. Árvores enormes ladeavam a construção e agiam como um isolamento natural contra os ruídos vindos da cidade. O ar puro, os pássaros e o pequeno lago que havia na propriedade proporcionavam um ar de interior aquele imóvel encravado no meio de uma das cidades mais povoadas do planeta. A compra foi fácil. Não havia concorrentes e o antigo proprietário pediu um preço estranhamente baixo. Apesar do corretor negar veementemente, uma rápida caminhada pelas casas vizinhas e uma conversa informal com os moradores; trouxe o motivo do preço baixo a tona: A casa tinha fama de ser mal assombrada. Secretamente ele ria muito com toda aquela superstição idiota. Como, em pleno século vinte e um, as pessoas ainda acreditavam em fantasmas e “almas penadas”. Estava para casar e, mesmo sendo um profissional bem remunerado, ele não conseguiria comprar nada como aquele imóvel por preço semelhante. Com satisfação fechou o negócio e contratou uma empresa para deixá-la como queria. Só ocuparia a casa após o casamento. Seria uma surpresa para sua amada e não via a hora de observar sua reação de espanto e alegria. O casamento aconteceu e, como ele previa, sua esposa ficou simplesmente maravilhada com a magnífica casa. Cumprido o ritual da entrada no colo do noivo, ela desatou a correr pela casa, aos gritinhos e gargalhadas. Exclamando: “Que maravilha! Noossaa, como é enorme!” Resto do dia foi gasto apenas com amor. Passaram horas fazendo amor e, depois de saciados e cansados, foram toar um banho e prepararem-se para comer. Os amigos, muito atenciosos, já haviam contratado um serviço de jantar completo que os aguardava. Tudo era um sonho de felicidade. Mas, não demorou muito e os problemas começaram. Logo na segunda semana, ao chegar em casa do trabalho, ele encontrou a mulher nervosa e chorando num canto da cozinha. Perguntou o que acontecera, e ela disse que vira um homem na casa e escutara alguém revirando as gavetas e armários nos quartos. Ele riu e a abraçou: “Deve ser sua imaginação por ficar sozinha, nesta casa enorme” – Ele tentava confortá-la. “Eu sei o que vi” – Ela rebatia convicta. Mas ele nunca vira nem ouvira nada de anormal na casa. Nem mesmo quando a visitara sozinho durante as obras. Creditava o comportamento da mulher ao desejo de mantê-lo em casa. Mas sempre que chegava em casa, ela estava em frangalhos. Passou a descuidar da aparência e a relaxar com a casa e a comida. Alguns cômodos fediam e a louça se acumulava na pia. A desculpa era sempre a mesma: “O homem me persegue”. O pranto da esposa era tão dramático que ele acabou contratando uma médium para “limpar” a casa. A mulher nada encontrou de anormal e após “limpar” o bolso dele, foi embora. Aquela foi a gota d’água. Ele teimava para que a mulher saísse e passasse mais tempo na cidade. Ela, sempre nervosa e chorando muito, se negava a sair da casa. Parecia presa por algo mais forte do que ela. Estaria enlouquecendo? Esse era o pensamento dele. Afinal, a mãe dela e uma tia viviam num sanatório no interior. O “esgotamento nervoso” parecia ser algo de família. Aos poucos, o amor e a afeição deram lugar ao repúdio e ao cansaço. Ele mal parava em casa agora. Sempre evitava chegar cedo para ter de aturar as choradeiras, reclamações e, o já tradicional, “ataque fantasma” que ela teimava em reiterar todas as noites. No fim, ele acabou pedindo o divórcio. Já estava com outra mulher e, mesmo ainda amando sua esposa, não podia mais suportar a vida que levava. Quis deixar a casa. No entanto, foi ela que arrumou as malas rapidamente e disse que jamais voltaria ali. Ele acabou ficando sozinho naquela casa enorme. Cansado, deprimido e pensando no que fazer para ajeitar sua vida, dali para diante; acabou adormecendo no sofá da sala. Não sentiu o tempo passar e mergulhou num sonho sem sonhos. Lá pelas três horas da manhã, foi acordado por barulhos altos vindos do andar superior da casa. Parecia que alguém brigava e rolava pelo piso de madeira, fazendo um escarcéu. Apanhou a arma que guardava no escritório, junto à biblioteca, e subiu as escadas correndo. O barulho continuava e sugeria uma enorme confusão. Mas estranhamente, tudo estava em ordem e imaculadamente arrumado. Começou a ouvir gritos, ofensas e um falatório cada vez mais alto. Da cozinha, o barulho de panelas e copos caindo, fez com que descesse as escadas e corresse para o cômodo. Novamente, nada. Tudo na mais perfeita ordem. Ouviu um grito seguido de uma gargalhada atrás de si. Voltou-se e viu, perto da porta do corredor, a figura de um homem. Devia ter uns cinqüenta e poucos anos; cabelo levemente branco e feições enrugadas. Mas, o mais terrível, eram os olhos. O olhar vomitava ódio e asco. A boca levemente retorcida sugeria uma vontade de maltratar qualquer um que atravessasse o seu caminho. Sentindo uma enorme angústia, ele interpelou o homem: “Quem é o senhor e o que quer?”- Impassível, o velho continuava fixando-o com o olhar de ódio. Mais uma vez, ele perguntou: “Quem é você e o que quer? Se não responder nem sair daqui, vou chamar a polícia”. Sua voz tremia levemente, e traía sua intenção de exprimir firmeza. O velho riu e, apesar disso, seu olhar continuava a transmitir o ódio profundo que sentia. Nada fazia; nada dizia; apenas o fitava com aquele olhar malévolo e penetrante. Apavorado e tremendo muito, ele sentiu que perderia o controle a qualquer momento, sem pensar, ergueu a arma e disparou várias vezes contra velho que, sem nada dizer, apenas continuava olhando-o. Já desesperado, tentou correr e atirar-se sobre a janela. Pensava apenas em sair dali e ficar o mais longe possível. Agora entendia todo o desespero que a esposa vivera ali e todo o terror que sentia; ma não conseguiu mover-se. Dias depois, seus pais vieram visitá-lo. Como não atendia ao telefone, resolveram aparecer e ver o que acontecia. Pela porta, o cheiro forte de podre se fazia sentir e dominava o ambiente. Como ninguém atendia, chamaram a polícia que arrombou a porta. Tudo para depararem-se com o corpo dele, já em decomposição, caído na sala; bem próximo à entrada do corredor. Já estava ali há dias. Uma necropsia relatou a morte por infarto. Após o funeral e alguns meses depois, a casa foi a leilão e um novo casal ocupou o imóvel. Numa noite, o marido ao chegar do trabalho, encontrou a mulher no jardim. Estava aos prantos e tremia muito. Ao perguntar o que havia acontecido e o que a assustara tanto; ela, ainda chorando, disse-lhe que vira um velho andando pela casa, com um olhar maligno. Atrás dele, continuava ela, haviam vários homens que lutavam entre si. O velho os olhava com um ódio profundo e gargalhava vendo-os maltratarem um outro espírito que chamavam, aos gritos, de “novato”. Naquela mesma noite, eles deixaram a casa.
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