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    Segunda-feira, 24 de Março de 2008

    ESTRANHA PESCARIA.


    Era uma noite clara. A lua iluminava as águas calmas do rio com um brilho forte e prateado; quase hipnótico. Eles aguardavam desde o início do ano por aquela oportunidade toda especial. Todos conseguiram tirar férias juntos e após muita economia e sacrifícios, juntaram o valor correspondente às despesas com a viagem e a permanência naquela cidadezinha bucólica.

    Todos diziam que a pesca por ali era maravilhosa. Peixes enormes e de fácil captura, além de brigadores, eram de se encontrar facilmente por aquelas bandas do rio. Diziam que vinha gente do mundo todo só para pescar ali. E, de fato, até aquele momento tinha sido maravilhoso.

    Embarcaram mais uma vez e começaram a remar a canoa para o pesqueiro indicado pelo guia. A luz da lua parecia traçar o caminho através das águas calmas e quase transparentes. Era possível até se ver alguns peixes que se aproximavam da iluminação pendente na lateral da canoa. Chegando ao local determinado, atiraram suas iscas e ficaram aguardando os peixes “morderem”.

    Após horas sem que nada acontecesse e de muito bate-papo e alguns goles da excelente cachaça local, ânimo dos amigos diminuiu um pouco. O álcool e a fome começavam a cobrar os seus tributos e todos já pensavam em ir embora. Discutiam sobre qual decisão tomar, quando um barulhão vindo do rio chamou a atenção de todos.

    Na escuridão rasgada pela luz da lua, puderam divisar claramente um enorme vulto negro na água. O enorme peixe passou sob a canoa e, resvalando o casco, a fez balançar. Imediatamente, a conversa acabou e toda a atenção foi depositada nas águas agitadas. O enorme animal parecia brincar com eles. À distância e longe da iluminação do barco, ouviam o barulho de seus saltos e de suas estripulias aquáticas. Parecia observar e chamar os pescadores.

    E foi o que fizeram, deixando as varinhas de lado um pouco, começaram a remar e a perscrutar a escuridão tentando localizar o destino do peixe. Nada. Mas logo ouviram um barulho alto, como se algo muito pesado caísse na água. Seguiram na direção do som e deram com um desvio no rio. Um igarapé se abria à frente deles e o som do peixe mergulhava mais fundo por aqueles lados.

    Continuaram remando e deixaram o braço principal do rio. Penetrando no igarapé, a claridade da lua foi logo sendo engolida pela vegetação alta das margens que caía sobre o curso d’água formando uma cobertura natural.

    Certos de que haviam perdido a caça, resolveram que voltariam e iriam para casa. Bastava de cansaço e de perda de tempo por aquela noite. Surpreendentemente, a corrente no igarapé era mais forte que no rio por onde vieram. Mal conseguiam ver poucos metros à frente e o medo já começava a plantar suas raízes nos corações dos pescadores. Remavam cada vez mais rápido e em silêncio total. Que era quebrado apenas pelo barulho da mata ao redor deles e pelo ritmo do bater dos remos na água.

    Estranhamente, a correnteza parecia puxá-los cada vez mais para o interior do igarapé. Aquilo era impossível. Mas tinham a nítida impressão de que já haviam remado mais do que o necessário para transpor a distância que penetraram por aquele curso d’água.

    Um solavanco forte e rápido jogou a canoa para o alto e fez com que soltassem os remos e boa parte do material de pesca e a iluminação caísse no rio. Tentaram ver em que teriam batido. Mas não havia pedras e nem troncos aflorando das águas. Examinaram o casco da canoa e perceberam uma enorme rachadura bem no meio dela. A água começava a inundar o barco e a única chance era tentar chegar à margem. Mas aquela estranha corrente os impedia. Quanto mais tentavam, usando tudo o que tinham em mãos como remos, menos avançavam em qualquer direção.

    A água em volta da canoa começou a agitar-se e a borbulhar. Como se um enorme bolsão de gás houvesse se rompido logo abaixo de onde estavam. Desesperados, abraçaram-se forçados pelo medo e foi com os olhos esbugalhados pelo terror que viram a canoa partir-se e afundar nas águas geladas. Nadavam movidos pelo desespero e pela adrenalina quando um deles, soltando um grito lancinante, foi tragado pelas profundezas do rio e desapareceu. Os outros começaram a nadar com todas as forças, rumo a margem. Mas avançavam lentamente. A água fria e a correnteza anulavam seus esforços quase totalmente. Gritavam por ajuda, na vã esperança de que alguém os socorresse.

    Mas, por sobre o ruído ensurdecedor da correnteza, só outro grito desesperado cortou a noite. Ele agora estava sozinho. Não vira o que acontecera, mas instintivamente, sabia que aquele grito horrível só podia ter sido dado por seu amigo. Nadava mais rápido e começava a sentir os primeiros sinais de câimbras. Sabia que era o fim. Estava exausto, sentia que seu corpo estava prestes a se entregar. Morreria e ninguém jamais saberia o que acontecera com ele e seus amigos.

    Seus pensamentos vagavam e preparavam-se para o torpor que tomaria conta dele em breve. Foi quando. Subitamente, sua mão bateu em algo sólido. A dor foi tão grande que despertou todo o seu corpo do abraço mortal que começava a se apossar dele: Chegara à margem.

    Com o resto de suas forças, conseguiu subir pela beira do rio e rolar para o mato, afastando-se o mais que pode das águas mortais. Ergueu-se e olhou para o rio que agora estava calmo e silencioso como antes. Não entendia o que acontecera. Onde estavam seus amigos?

    Tentava achar algum vestígio deles e do barco quando, bem próximo à margem onde estava, viu novamente a enorme silhueta negra do peixe que os arrastou até aquela armadilha mortal. Sem pensar, apanhou uma pedra e atirou na estranha sombra. O que viu depois, o marcaria para sempre: Do fundo do rio, ele percebeu que dois enormes olhos vermelhos e incandescentes o observavam.









    Nota do Autor: Conto baseado na lenda do “nego-d’água”.

    Diz a lenda que o Negro D'água ou Nego D'água habita diversos rios tais como o rio Tocantins e o rio São Francisco onde possui um monumento em sua homenagem na cidade de Juazeiro (Bahia).

    Manifestando-se com suas gargalhadas, preto, tem a cabeça pelada e mãos e pés de pato, o Negro D'água derruba a canoa dos pescadores, se eles se lhe recusarem dar um peixe.

    Em alguns locais do Brasil, ainda existem pescadores que, ao sair para pescar, levam uma garrafa de cachaça e a atiram para dentro do rio, para que não tenham sua embarcação virada.

    Esta é a História bastante comum entre pessoas ribeirinhas, principalmente na Região Centro-Oeste do Brasil, muito difundida entre os pescadores, dos quais muitos dizem já ter o visto. Segundo a Lenda do Negro D'Água, ele costuma aparecer para pescadores e outras pessoas que estão em algum rio. Não se há evidências de como surgiu esta Lenda, o que se sabe é que o Negro D'Água só habita os rios e raramente sai dele, sua função seria como amedrontar as pessoas que por ali passam, como partindo anzóis de pesca, furando redes dando sustos em pessoas a barco,etc.

    Suas características são muito peculiares, ele seria a fusão de homem negro alto e forte, com um anfíbio. Apresenta nadadeiras como de um anfíbio, corpo coberto de escamas mistas com pele. (Fonte Wikipédia)

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