
Estava cansado e com fome. Caminhara a noite toda por aquela estrada deserta e não vira um único carro ou uma única alma viva em mais de cinco horas de caminhada. Logo ia amanhecer e sabia que o sol, naquele deserto, ia torrar seu pobre corpo lentamente até que sedento e enfraquecido; morreria. Era necessário buscar um abrigo o mais rápido possível.
Na escuridão, não conseguia vislumbrar nada que não estivesse muito perto. A sua frente, apenas o asfalto que logo estaria em brasa. À direita, apenas uma vasta planície árida e repleta de rochas cortantes e a minha esquerda, um emaranhado de rochas enormes e pedras soltas que se elevava vários metros acima do solo.
O sol já se insinuava no horizonte e a brisa fresca de agora, daria lugar ao calor extremo e ao vento escaldante muito em breve. Com os tênues rasgos de claridade, conseguia divisar a paisagem mais claramente. Ao longe, pode ver o que parecia uma pequena abertura num monte pedregoso; o que podia indicar uma caverna. Era a única opção para escapar do sol abrasador e de seu abraço mortal.
Lentamente rastejou pela pequena abertura e conseguiu, após alguns minutos, enxergar no interior escuro da pequena caverna. O espaço interno era maior do que pensara. Apesar da entrada apertada, era possível ficar de pé e bem no fundo, via-se uma abertura que mergulhava profundamente na terra. Pelo menos do sol, estaria seguro agora.
Exausto, faminto e com uma sede infernal; deixou-se cair sobre o chão arenoso e mergulhou num sono sem sonhos. Deve ter dormido muito pouco. Sentia-se ainda exaurido quando, finalmente, abriu os olhos. Podia perceber que lá fora, o calor era terrível. Ao aproximar-se da pequena entrada, uma emanação tórrida atingia sua pele e o fazia recuar. Calculou que devia estar perto dos cinqüenta graus lá fora.
Sua língua inchada parecia grande e dolorida demais, causando um desconforto terrível. A garganta, ressequida e inflamada, tornava cada respiração um tormento torturante. Era como se lâminas afiadas rasgassem suas vias aéreas a cada respiração. Tentou cantar para espantar o terror que sentia, mas era impossível. Se não bebesse algo bem rápido; morreria.
Começou a explorar a caverna e não encontrou nada que pudesse ser comido e nem que contivesse algum líquido. Aquele buraco era tão morto e seco; como ele logo seria. Sua única opção era deixar-se escorregar por aquela abertura no fundo da caverna. Sabia muito bem que esses buracos podiam ser habitados por criaturas do deserto perigosíssimas. Mas não havia outra opção. Sabia que não duraria nem mais um dia naquele buraco e; muito menos, lá fora.
No interior da fenda, a temperatura era incrivelmente menor do que na caverna. Achou que estaria a uns vinte e dois ou vinte e quatro graus ali. O que era muito estranho. Pois, essa diferença, deveria ser de apenas uns poucos graus somente. E o mais impressionante de tudo: A pequena fenda; dava para uma abertura gigantesca. Quase uma catedral subterrânea. O pequeno caminho por onde entrara, alargava-se até atingir quase dois metros de largura no meio da descida.
À medida que caminhava para baixo, o teto da nova caverna ia sumindo da vista; até tornar-se completamente indistinto. Era simplesmente impossível calcular a altura daquela magnífica construção natural. Sentiu um cheiro familiar e escutou um barulho, pelo qual, ansiava há muito tempo. Começou a correr, tomado pelo desespero, e mesmo quase sem enxergar; arriscou-se a cair numa fenda ou a tropeçar sobre uma roça pontiaguda. Mas, aquele barulho... era água.
Chegou à base do caminho e nem se deu conta de que levara quase cinco minutos correndo, para atingir a base da caverna. A distância era enorme, mas isso não importava mais. Apenas o maravilhoso lago límpido e profundamente azul que se descortinava a sua frente. Não havia qualquer fenda no teto da caverna, mas a água irradiava um brilho azulado forte, que se espalhava pelas paredes rochosas e perdia-se na escuridão reinante.
Sem sequer hesitar, mergulhou imediatamente naquele paraíso líquido. Quando tocou a água, deixou-se invadir pela maravilhosa sensação gelada e confortante; que afastou completamente seu desespero e seu cansaço extremo. Ali, rindo e feliz como uma criança, erguia as mãos para o alto e despejava a água gelada sobre sua cabeça, sorvendo avidamente, goladas e mais goladas daquele precioso maná.
Esquecera-se completamente de onde estava e de suas preocupações. Naquele exato momento, só havia ele e a água. Foi quando uma voz delicada e feminina chamou sua atenção.
Olhando ao seu redor, nada viu. Mas aquela voz... era encantadora e estava tão próxima. Logo depois, seguiram-se risinhos de contentamento. Já refeito do susto e com o corpo revigorado pelo banho e pela água ingerida, deixou o lago e aventurou-se ainda mais profundamente na caverna; atrás daquela voz maravilhosa.
Contornando uma rocha enorme, vislumbrou uma luz forte e radiante. Ela banhava aquela parte da caverna com uma claridade tão forte que mal podia manter os olhos abertos. Olhou para trás e percebeu que a estranha luz dissipava-se completamente e de maneira abrupta logo atrás de si. Aquilo era intrigante e desafiava as leis da física. Era como se um manto gigantesco cobrisse a entrada de onde a luz jorrava; isolando-a completamente e impedindo que fosse vista do outro lado da caverna.
Quando seus olhos acostumaram-se a claridade, um mundo estranho e totalmente inusitado abriu-se a sua frente. Planícies verdejantes, lagos, árvores, animais nunca vistos, e... pessoas. Via crianças, mulheres belíssimas e homens fortes trabalhando ou simplesmente passeando pelos campos vastos. Tentou vislumbrar o horizonte, mas não percebia o fim daquela paisagem, por mais ao longe que esticasse o olhar.
Gritos de medo e espanto chamaram sua atenção e percebeu que todos corriam em disparada; mergulhando na floresta de enormes árvores roxas que se erguiam algumas centenas de metros mais à frente.
Apenas uma delicada figura esguia e morena permaneceu de pé, encarando-o curiosamente. Olhos amendoados e inquisitores, emoldurados por um cabelo longo e liso; o que dava uma beleza estranha e harmoniosa aquele rosto sereno. Esticando os braços, a beldade sorriu amigavelmente e disse, sem mover os lábios, que ele se aproximasse. Era isso mesmo, ele ouvia a bela voz em sua mente. Mas a exótica mulher não fazia qualquer movimento labial.
Curioso e maravilhado; estendeu sua mão para ela tocando-lhe levemente a pele macia e quente. Segurou-lhe a mão e caminhou ao longo de um calçamento de pedras até uma pequena construção que pareci ser feita de palha.
Deitou-se numa cama macia e perfumada e percebeu que uma luz dourada banhava levemente seu corpo e retirava toda a dor e a fadiga que sentia. A mulher, ainda sorrindo e sempre olhando com curiosidade quase infantil; despiu-lhe a roupa esfarrapada e estendeu-lhe uma túnica tecida em algo que parecia ser seda. Mas, era muito mais delicado.
Aproximando-se cautelosamente, ela beijou-lhe os lábios com suavidade e ele pode sentir seu gosto e seu perfume inebriante. Num gesto rápido, ela aproximou uma cesta com vários tipos de alimentos estranhos e, mais uma vez em sua mente, ouviu-a dizer que comece.
Após algum tempo se fartando daquelas frutas estranhas, porém deliciosas, olhou na direção da curiosa beldade que o encarava outro lado da pequena sala. Delicadamente, ela pegou-o pelo braço e fez com que saísse da cabana. Lá fora, uma multidão enfeitada e alegre acotovelava-se ao redor da entrada, vestida para uma ocasião festiva. Pareciam sorrir e irradiavam uma enorme felicidade ingênua.
Ele sorriu de volta e ergueu sua mão num cumprimento amigável. Foi quando um silvo alto e breve, bem do seu lado esquerdo o fez virar-se. Ainda pode ver a pesada lâmina que o acertara bem no alto do ombro, praticamente, partindo todo seu tronco. Enquanto a dor o engolfava numa escuridão espessa; pode ouvir, mais uma vez, a doce voz feminina reverberar em sua cabeça: “Vocês da superfície são sempre um ótimo sacrifício aos nossos Deuses!”