Sábado, 1 de Março de 2008
O CAMINHONEIRO.
![]() Acordou enjoado. Aquela sensação o acompanhava desde o início da manhã anterior. Era algo forte que parecia apertar seu peito e estômago como seu fosse um enorme peso depositado ali. Mas tinha que trabalhar. Caminhoneiro experiente e acostumado ao transporte de cargas perigosas. Era sempre requisitado para o fretamento das cargas mais valiosas, e de maior periculosidade. Seus mais de vinte anos ao volante tornaram-no um cínico. Não acreditava em nada dessas baboseiras religiosas e abominava esse negócio de “ajudar ao próximo”. Toda vez que tentara ajudar alguém, sofrera algum prejuízo ou fora atacado por assaltantes. Mas não se sentia muito bem. Pensou que talvez fosse melhor ter alguém com ele na boléia do caminhão naquela viagem. Entrou na cabine e ligou o motor que estremeceu e vomitou fumaça no ar limpo da manhã que se anunciava. Ainda com a sensação estranha martelando seu peito, vislumbrou o céu que clareava no horizonte e acelerou a poderosa máquina. Levou pouco mais de meia hora para chegar até o pátio da transportadora. “Quisera Deus que o trânsito fosse sempre assim” – Pensou. Mas, ao procurar pela carga que deveria transportar, o encarregado disse apenas que ele deveria apanhá-la em outro endereço. Deu-lhe os documentos e as orientações necessárias e o fez rodar. Uma hora mais tarde, chegava a um enorme armazém junto ao cais do porto. Logo na entrada, um homem de aparência zangada e impaciente o esperava e indicou o local onde poderia apanhar a carga. Ele manobrou o caminhão e uniu o “cavalo” ao engate com a carreta. Consultou a documentação; tudo estava em ordem. O manifesto de carga dizia apenas: “Resíduos Biológicos”. A viagem até o ponto de destino seria demorada. Cerca de vinte horas de viagem e, o cara estranho da entrada, lhe dissera que na cidade vizinha haveria uma escolta para seguí-lo até o destino final. "Pois a carga atravessaria o meio urbano" - Dissera. Os primeiros quilômetros foram calmos. Mas, conforme o dia ia dando lugar à noite, a sensação de mal estar e de peso no estômago aumentavam. Aquilo o estava incomodando tanto que pensou em parar na estrada e chamar o socorro médico da companhia. Enquanto pensava nessa decisão, viu ao longe, que uma mulher na estrada fazia sinais desesperados tentando fazer com que os veículos parassem. Conforme se aproximava, via que ela segurava um embrulho nos braços e seu rosto estava transfigurado pela ansiedade e pelo desespero. Parou o caminhão no acostamento e notou que o embrulho era, na verdade, um pequeno bebê. Muito miudinho para ser um recém-nascido saudável. A mulher, em pratos, pedia ajuda para chegar à cidade mais próxima, onde haveria um hospital equipado para salvar seu filho que ardia em febre. Mesmo sabendo que era uma atitude irregular, o caminhoneiro ajudou a mulher a subir na boléia do caminhão e pôs-se novamente a caminho. A criança chorava muito, acompanhada por sua mãe que soluçava e rezava baixinho. O velho caminhoneiro preocupava-se em não conseguir chegar a tempo. Mas fazia o que podia e se aumentasse muito a velocidade, corria o risco de provocar um acidente. A noite já cobria tudo e a estrada mergulhou na escuridão que a torna tão perigosa. A atenção do velho caminhoneiro estava totalmente concentrada no asfalto que se desenrolava a sua frente; quando, após uma curva, um acidente horrível entre vários carros e um ônibus obstruíra a passagem do caminhão. Seria necessário circular pela pista de mão oposta para continuar a viagem. Estranhamente, não se formara ainda o engarrafamento de praxe na estrada. Ele estranhou, mas resolveu cuidadosamente desviar e avançar sobre a pista contrária. Contornando o desastre, retomou a mão de direção correta e poucos quilômetros à frente, uma vendinha de beira de estrada estava em chamas. Enquanto o caminhão se arrastava pelo aclive, gemendo com o peso de sua carga, o velho caminhoneiro pôde ver claramente os corpos despedaçados e queimados ainda fumegantes; espalhados ao redor da estrutura em chamas. Uma visão estarrecedora que fez seu sangue gelar. Aquela, sem dúvida alguma, estava se tornando uma viagem de mau agouro. Nunca, em todo seu tempo de estrada, vira algo como aquilo. Tamanha reunião de desgraças simultâneas era algo tão incomum que ele acabou achando que o peso que sentia o peito e no estômago eram, na verdade, uma premonição do que aconteceria mais tarde. Ainda estava imerso naqueles pensamentos quando escutou uma enorme explosão bem à frente de uma curva fechada. Um clarão enorme iluminou a noite e os gritos que se seguiram podiam ser ouvidos, com uma nitidez incrível, dentro do caminhão. A criança e a mulher olharam espantadas e começaram a chorar, soluçar e gritar ainda mais alto. Quando ele terminou de fazer a curva... não havia nada. A estrada estava completamente calma e deserta. Só ao longe, ele podia divisar os carros da escolta que o aguardavam no fim da reta: Era a divisa da cidade. O velho caminhoneiro, calejado e endurecido pelos anos de estrada, sentia-se tão transtornado por tudo que vivenciara naquela noite estranha que se rendeu e começou a rezar baixinho. Pedia que Deus olhasse por todos aqueles que se vitimaram naqueles acidentes ao longo do caminho e, que o bebê ao seu lado que chorava cada vez mais alto, conseguisse chegar a tempo no hospital. Decidiu que ao chegar à escolta, pediria que enviassem um helicóptero para agilizar o resgate. Foi quando sentiu um toque gentil em seu braço. Era a jovem mãe. Com os olhos marejados e com uma expressão de ternura imensa. A mulher lhe disse apenas: “Obrigado por ajudar moço!” – E desapareceu da cabine. Assustado, o velho pisou no freio com toda força que seu corpo possuía e, assim que o veículo parou, jogou-se para fora da boléia. A equipe de escolta, temendo pelo pior, chegou ao local em menos de um minuto e cercou o caminhão; sinalizando a estrada. Perguntaram ao velho o que tinha acontecido: Pane? Estava passando mal? Sono? O velho nada disse. E, diante da insistência do pessoal, acabou erguendo-se e retornou ao caminhão sem dizer uma única palavra; prosseguindo a viagem. Daquele ponto até o fim da jornada, nada mais de extraordinário acontecera. Tudo foi tranqüilo e, ao desengatar a carga no pátio de uma enorme indústria, ele fez questão de perguntar ao encarregado: “Afinal, o que tem aí”. A contra gosto, o encarregado comentou: “São restos humanos não reclamados de um velho cemitério de indigentes que a prefeitura vai desativar. Nós oferecemos nosso forno para incinerar tudo com segurança”. Então, o velho caminhoneiro entendeu tudo. Compare preços de: ..... |









